Teologia do Trono
O progresso da redenção não pode ser compreendido se o visualizarmos apenas a partir da cruz. A crucificação foi necessária para o perdão dos pecados, mas a Escritura insiste que a colocação decisiva de Cristo, e da igreja nele, está no trono de Deus. É essa entronização que define a era presente. Reconhecer isso é compreender a posição real da vida cristã. Não estamos parados ao pé da cruz como se a história tivesse parado ali, nem estamos esperando do lado de fora do túmulo vazio como se a ressurreição fosse o fim. O evangelho anuncia que Jesus Cristo ascendeu e agora está assentado à direita do Pai, e que aqueles que lhe pertencem estão assentados com ele nos lugares celestiais. A redenção é consumada na entronização, e o crente participa dessa realidade agora.
A cruz permanece como o fundamento da salvação. Jesus carregou a penalidade do pecado, satisfez a justiça divina e garantiu a reconciliação eterna. Diminuir isso seria diminuir o próprio evangelho. No entanto, o Novo Testamento nunca nos permite parar nessa etapa da narrativa. A ressurreição verificou a sua vitória sobre a morte e vindicou a sua reivindicação como o Filho de Deus. Mas nem mesmo a ressurreição é o término da redenção. Os apóstolos testemunham que Deus exaltou Cristo ao ressuscitá-lo dos mortos e assentá-lo à sua direita nos lugares celestiais, muito acima de todo domínio e autoridade. A entronização é o ato que instala Cristo como rei e cabeça sobre todas as coisas, e é nessa posição que a igreja recebe a sua identidade. O perdão na cruz e a vida na ressurreição levam à autoridade no trono, e é aí que o cristão se posiciona hoje.
Efésios 2:6 declara que Deus “nos ressuscitou com ele e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. A linguagem não é futura, mas passada. Ela fala de um ato realizado. Paulo não diz que os crentes serão assentados com Cristo após a ressurreição do corpo, embora isso permaneça verdadeiro, mas que eles já compartilham de seu entronização. Esta é uma declaração de realidade presente, fundamentada na união com ele. Se Cristo reina à direita de Deus, então a igreja nele também reina. Isso deve reformular a maneira como o cristão concebe a vida e o chamado. A fé não é uma tentativa desesperada de se apegar a um Salvador crucificado que ainda não triunfou, mas uma participação confiante no reinado daquele que agora possui toda a autoridade no céu e na terra.
Colossenses 3:1 confirma esta perspectiva: “Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à direita de Deus.” O imperativo segue de um indicativo. Porque os crentes foram ressuscitados com Cristo, eles recebem a ordem de fixar a mente nas coisas do alto. A mente e a vida do cristão devem ser orientadas para o trono. Viver como se ainda estivéssemos aguardando a entronização é negar o que Deus realizou. O chamado à santidade, à oração e à perseverança pressupõe uma identidade presente com Cristo em seu reinado. É por isso que Paulo pode dizer que o pecado não terá domínio sobre nós. O domínio mudou, e o crente agora participa do domínio de Cristo.
O trono é também o ponto de vista apropriado para a missão da igreja. Com frequência excessiva, a igreja se imagina como fraca, sitiada e marginal, agarrando-se à sobrevivência até o fim. Mas essa imagem contradiz o testemunho apostólico. Jesus reina agora, e a igreja é o seu corpo, a plenitude daquele que enche tudo em todos. Do trono procede a autoridade para pregar, para curar e para confrontar os poderes das trevas. Quando os apóstolos oraram por ousadia em Atos 4, eles fundamentaram sua súplica no reconhecimento de que Cristo havia se assentado no céu e de que as nações estavam sujeitas a ele. Sua confiança não se baseava em seus números ou em suas estratégias, mas em sua posição com Cristo em seu reinado. Milagres, sinais e maravilhas acompanhavam seu ministério. Eles não estavam trabalhando à sombra da cruz, mas agindo sob a autoridade do trono.
O Salmo 110 profetiza essa entronização: “Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos como estrado para os teus pés’”. Esse versículo é a passagem do Antigo Testamento mais frequentemente citada no Novo Testamento, precisamente porque descreve o reinado presente de Cristo. Os inimigos permanecem ativos, mas estão destinados à subjugação debaixo de seus pés. A igreja vive nesse período intermediário, mas a entronização em si já foi realizada. Essa estrutura escatológica explica como o cristão pode tanto reinar quanto sofrer, tanto triunfar quanto suportar oposição. O trono é real e presente, mas a manifestação final de seu poder aguarda o último dia. Mesmo assim, a igreja é chamada a viver a partir da entronização em vez de em direção à entronização, uma vez que sua vida agora está ligada ao Cristo ressuscitado e exaltado.
Hebreus 1 reforça o ponto ao contrastar o entronamento de Cristo com os anjos subordinados: “Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas.” A purgação do pecado na cruz foi o pré-requisito, mas o entronamento foi o resultado. Dizer que ele “se assentou” sinaliza completude e autoridade. Seu trabalho mediador continua, mas o ato decisivo já foi realizado. Quando Hebreus 12 convoca os crentes a correrem a carreira olhando para Jesus, descreve-o como aquele que suportou a cruz e agora está assentado à direita do trono de Deus. A exortação é centrada no trono. A vida cristã é sustentada pelo reconhecimento de Cristo entronizado, não pela imaginação de que o ato decisivo ainda permanece em suspense.
Uma teologia do trono protege contra distorções que surgem de um foco incompleto. Se a cruz se tornar o único ponto de referência, o cristianismo corre o risco de degenerar em culpa e fraqueza perpétuas, como se os crentes devessem permanecer para sempre no local do sacrifício sem compreender o triunfo que se seguiu. Se a ressurreição se tornar o ponto final, o cristianismo corre o risco de ser reduzido a uma mensagem vaga de esperança ou vitalidade, desconectada de uma autoridade concreta. O trono sozinho garante o quadro completo. Ele proclama perdão, vida e governo, integrados naquele que agora reina. Ele assegura ao crente que toda oração, todo ato de fé e toda obra do evangelho procede da autoridade celestial já estabelecida.
Essa perspectiva também reformula a relação da igreja com o mundo. A história não é impulsionada por impérios ou economias, mas pelo Cristo entronizado. A igreja não precisa imitar os sistemas do mundo porque já participa da autoridade que os governa. Isso explica a insistência de Paulo de que a sabedoria do mundo não pode derrubar a sabedoria de Deus. A igreja fala com confiança, não por causa do poder social, mas por causa de sua participação no trono. Até mesmo a fraqueza aparente é transformada quando vista dessa perspectiva, pois o resultado é determinado pela autoridade de Cristo que reina acima de tudo.
A dimensão escatológica permanece. O trono é real agora, mas a submissão final de todos os inimigos ainda está por vir. Os crentes reinam com Cristo, mas também suportam oposição. Eles exercem autoridade, mas também aguardam a consumação. O Novo Testamento não nega nenhum dos aspectos. Em vez disso, ele convoca a igreja a viver fielmente a partir de sua identidade de trono até o dia em que o entronizamento seja visível para toda a criação. Apocalipse 3:21 oferece esta promessa: “Ao que vencer, eu lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.” A sequência já está estabelecida, e a extensão futura desse reinado está garantida.
A teologia do trono apresenta a identidade presente do crente. A redenção avança da cruz para a ressurreição e para a entronização, e a entronização é decisiva para a igreja hoje. Não somos meramente pecadores perdoados que se apegam à cruz, nem somos apenas testemunhas de um túmulo vazio. Estamos assentados com Cristo nos lugares celestiais. Essa é a nossa posição, a nossa autoridade e o nosso chamado. Viver com consciência do trono é compreender a verdadeira natureza da vida cristã e o verdadeiro lugar da igreja na história. É abraçar a realidade de que Cristo reina e de que reinamos nele.
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