As Portas de Gaza

A vida de Sansão após o massacre em Leí avançou rapidamente para uma nova e fatídica cena. Ele havia sido juiz em Israel por alguns anos, temido pelos filisteus, odiado por seus líderes e mal tolerado pelo seu próprio povo. A história agora se volta para Gaza, uma das principais cidades dos filisteus, situada perto da costa com altas muralhas e portões que simbolizavam segurança. Gaza era a mais ao sul das cinco principais cidades filisteias, uma sentinela guardando as rotas comerciais do Egito, uma cidade de força e desafio contra Israel. Era conhecida pelo comércio e pela riqueza, um lugar de poder e orgulho, e para os filisteus representava uma fortaleza de seu domínio. Atacar Gaza era atacar o coração de seu império. Para dentro dessa cidade Sansão foi, e para dentro de sua escuridão a história nos atrai.

Sansão desceu a Gaza e viu ali uma prostituta, e entrou para passar a noite com ela. Nenhuma explicação é dada. A narrativa não a suaviza nem a desculpa. Ela simplesmente nomeia o seu pecado. Isso não foi um casamento como em Timna, onde pelo menos havia havido uma pretensão de aliança. Isso foi indulgência, crua e indigna de um nazireu. O homem consagrado desde o nascimento para ser separado para Deus entrou no leito de uma que era separada para nada além da venda. O consagrado tornou-se comum, o libertador buscou refúgio no pecado. Era a marca de um homem descuidado com o seu chamado.

Sansão desceu até Gaza, penetrando mais fundo no território filisteu do que nunca. Entrar em suas cidades não era em si uma falha, pois sua vocação como juiz exigia que ele confrontasse o inimigo em suas fortalezas. A vergonha era que ele entrou em Gaza por indulgência, não por batalha. Em vez de atacar o orgulho deles, ele procurou uma prostituta. O que deveria ter sido o palco para o julgamento tornou-se o palco para o compromisso. Um homem criado sob anúncio divino, consagrado antes de seu nascimento, tratou seu voto como se não significasse nada. Aquele que foi separado para libertar Israel profanou a si mesmo no coração do inimigo. Seu pecado ecoou a infidelidade mais ampla de Israel, que se afastou de Deus para os ídolos. O povo se entregou a uma adoração falsa, e seu libertador se entregou a uma prostituta em Gaza. A desgraça foi severa, e o contraste com sua vocação não podia ser ignorado.

Ainda assim, Sansão estava em Gaza, e Gaza estava em tumulto. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade. “Sansão está aqui.” O nome era suficiente para despertar medo e raiva. Ele era o flagelo dos filisteus, o homem que havia queimado seus campos com raposas, que os havia derrubado com uma queixada, que havia zombado de sua força. Tê-lo dentro de seus portões era como ter seu pesadelo deitado em suas ruas. Desta vez, pensavam eles, ele estava preso. Sua cidade estava fechada ao seu redor, seus portões bem trancados. Ao amanhecer, eles o pegariam, e o libertador de Israel seria destruído.

Eles não o atacaram de imediato. Talvez temessem a força que haviam visto antes. Talvez acreditassem que a paciência lhes serviria melhor. Deixem-no dormir durante a noite, raciocinaram. Deixem-no acordar com o nascer do sol e com toda a força de nossa emboscada. O plano parecia certo. Pela manhã, o inimigo deles estaria preso ou morto, e Gaza se gabaria do triunfo. Suas risadas e sussurros naquela noite devem ter sido carregados de expectativa. O pensamento de desfilar Sansão diante de seu povo, de se gabar de que o terror dos filisteus agora jazia acorrentado, enchia sua imaginação. Mas sua confiança se baseava na ignorância. Eles esqueceram que suas muralhas não podiam conter o Espírito do Senhor.

Mas Sansão não esperou até o amanhecer. À meia-noite ele se levantou. As Escrituras não dão detalhes sobre seus pensamentos, mas o momento conta sua própria história. Ele não ficaria onde o perigo se intensificava. Ele saiu para a noite, e não escapou furtivamente. Ele caminhou até os portões da cidade, onde seus inimigos o pensavam preso. E ali ele fez o que nenhum homem poderia fazer sem o Espírito de Deus.

Os portões de Gaza não eram uma porta que alguém pudesse empurrar com a mão. Eram construções maciças de madeira e metal, fixadas na muralha da cidade com postes afundados profundamente na pedra. No mundo antigo, os portões eram o orgulho da defesa de uma cidade. Eram construídos grossos o suficiente para resistir ao fogo e pesados o suficiente para resistir a máquinas de cerco. Eram fixados com barras de ferro, trancados com ferrolhos e reforçados por torres de vigia. Representavam a força dos filisteus, o orgulho de sua defesa, o símbolo de que nenhum inimigo poderia invadir sua cidade. Tais portões podiam exigir toda uma companhia de homens para serem seguros ou reparados. Eram destinados a resistir a exércitos. Mas quando Sansão chegou até eles, ele os arrancou do lugar. Postes, barra, portas juntos, ele os ergueu sobre os ombros. O que os filisteus confiavam para sua segurança foi arrancado em um momento por um homem que confiava no poder de Deus.

Ele não os deixou de lado imediatamente, como se fosse apenas para escapar. Ele os carregou para longe, cerca de trinta a quarenta milhas, até chegar à colina em frente a Hebrom. A distância era longa e o caminho era difícil, mas a força de Deus o sustentou. O orgulho e a proteção de Gaza foram removidos em uma única noite. Os inimigos de Israel foram deixados expostos, sua fortaleza ridicularizada, sua força envergonhada. Isso era Deus declarando que nenhuma cidade, por mais fortificada que fosse, poderia resistir ao homem que ele capacitou.

A história é breve no texto, apenas alguns versículos, mas tem imensa significância. Sansão pecou naquela noite, e seu pecado foi real. Ele foi a uma prostituta, e sua escolha foi rebelião contra o seu voto. Mas naquela mesma noite ele agiu em fé, e sua fé também foi real. Ele ousou confrontar a força de Gaza não com um exército, mas com as próprias mãos, porque acreditava que o Espírito de Deus o sustentaria. O pecado era dele, a força era de Deus. Ambos eram verdadeiros, ambos aconteceram juntos, e ambos estavam sob a mão do mesmo Senhor soberano. O homem era culpado, mas o Deus que o capacitou foi glorificado.

Os filisteus devem ter ficado furiosos pela manhã. Sua emboscada havia se transformado em humilhação. Sua força havia sido zombada, seus portões exibidos como troféus na terra de seus inimigos. Seu juiz era o terror dos filisteus, e Deus estava com ele. Nenhuma fortaleza poderia resistir ao libertador que Deus havia levantado. Se Sansão pôde carregar os portões de Gaza, que inimigo poderia alegar segurança atrás de muralhas?

Portões são mais do que portas. Eles são símbolos de segurança, o limiar entre a proteção e o perigo, a marca da força de uma cidade. Perdê-los é ficar exposto, nu perante os inimigos. Gaza os perdeu em uma única noite, não por cerco, não por exército, mas por um homem capacitado por Deus. Foi como se o próprio Deus tivesse penetrado em suas defesas e as declarado nulas. A humilhação foi total. Ninguém podia olhar para as muralhas de Gaza sem ver a ausência, a brecha, a desgraça. A cidade que se gabava de força foi revelada fraca, e todo Israel viu o sinal.

Para Sansão em si, aquela noite trouxe tanto advertência quanto encorajamento. Seu pecado não foi desculpado, embora ele tenha saído vivo. Ele havia comprometido seu chamado, mas Deus ainda o preservara. O pecado desonra o homem e o conduz à ruína. Ir a uma prostituta foi uma tolice, e essa tolice um dia o destruiria se não fosse controlada. Todo compromisso aproxima o libertador da escravidão. Gaza não foi o fim, mas Gaza foi um sinal de que o fim estava chegando. Sua força permaneceu, mas sua fraqueza se aprofundou.

No entanto, a fé que agiu à meia-noite também foi elogiada. Sansão confiou no poder de Deus quando ergueu os portões. Ele não fugiu como um covarde. Ele não implorou por misericórdia. Ele caminhou até o próprio lugar do orgulho de seu inimigo e o arrancou. Os cristãos o criticam, mas a Escritura nunca o fez, e um milhão deles juntos não demonstraram a fé e a habilidade de um único Sansão que quebrou a aliança. Sua fé superou a de todos os seus críticos, apesar de seu pecado. A Escritura mais tarde registra seu nome entre aqueles que creram. Ele conquistou porque confiou na força de Deus, não na sua própria. Por mais manchada que sua vida tenha sido pelo compromisso, ele é lembrado como alguém que teve fé, e o mundo não era digno dele.

O pecado é um ônus, mesmo quando Deus ainda opera através de você. A prostituta em Gaza permanece uma mancha na vida de Sansão. Isso desonrou seu chamado e traiu sua consagração. Se ele tivesse se arrependido então, talvez sua história tivesse terminado de forma diferente. Mas ele continuou, e seus comprometimentos se aprofundaram. A história nos ensina que o plano de Deus não depende de nossa santidade, mas nossos pecados ainda podem ter consequências. Os portões de Gaza ergueram-se como um sinal da força de Deus, mas a cama em Gaza permaneceu como um sinal da fraqueza de Sansão.

Os filisteus acreditavam que sua armadilha era infalível. Eles o cercaram, confiantes em sua vitória. Mas quando Sansão se levantou à meia-noite, seu plano foi derrubado. O homem de fé agiu, e o poder de Deus o vindicou. Quando o inimigo cerca, tenha fé em Deus e levante-se. Sua força torna tolos os planos humanos. Seu Espírito derruba o que os homens acreditam que não pode ser movido. Sansão nos mostra que a fé, mesmo em um homem falho, ainda conquista. Deus se deleita em mostrar seu poder através daqueles que creem.

A história prenuncia algo maior. Sansão carregou portões para uma colina, um sinal de vitória sobre Gaza. Mas Cristo arrombou os portões da própria morte. O ato de Sansão foi espetáculo e humilhação para seus inimigos, mas o ato de Cristo foi libertação eterna para o seu povo. Sansão carregou madeira e ferro em seus ombros, mas Cristo carregou a maldição do pecado em sua cruz. Sansão humilhou Gaza, mas Cristo aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade. A colina que enfrentava Hebrom era um sinal, mas o Calvário foi o cumprimento.

A fé imperfeita de Sansão aponta para a fé perfeita de Cristo. O que Sansão carregou para a colina em Hebrom, Cristo carregou para o Gólgota pela salvação do seu povo. Um zombou de seus inimigos por um momento; o outro triunfou sobre todos os inimigos para sempre. Onde Gaza acordou para ver seus portões desaparecidos, o mundo acordou no terceiro dia para ver a pedra removida. Os portões de Gaza foram arrancados, mas os portões da morte foram despedaçados. Sansão humilhou uma cidade; Cristo destruiu o último inimigo. O juiz de Israel carregou ferro por uma noite; o Senhor da glória carregou o pecado até o fim.

A história prossegue sem pausa para o Vale de Soreque, onde Dalila espera. Mas as portas de Gaza permanecem como um monumento. Elas revelam Sansão como um homem consagrado desde o nascimento, mas descuidado com o seu voto, culpado em pecado, mas marcado pela fé. Elas revelam Deus como soberano em poder, misericordioso na preservação, fiel em cumprir o seu propósito. Elas mostram que a fé ousa contra a impossibilidade e prevalece pela força divina, enquanto o pecado degrada, enfraquece e arrasta o servo de Deus para a ruína.

Sansão saiu de Gaza com sua força intacta, mas a história nos prepara para sua queda. Sua fé ainda era real, mas seu pecado ainda estava atuando. Sua força humilhou seus inimigos, mas seus compromissos logo o entregariam a eles. Gaza foi vitória e advertência na mesma noite. Os portões foram levados para Hebrom, mas a sombra de Dalila já se estendia pela página.

📖 Artigo original:

The Gates of Gaza ↗