O Campeão Retorna

Os filisteus prenderam Sansão, vazaram-lhe os olhos e o prenderam com algemas de bronze. Levaram-no para Gaza e o obrigaram a moer grãos na prisão. Aquele que havia despedaçado leões e dispersado exércitos foi reduzido ao trabalho de animais. Aqueles que não podiam enfrentá-lo no campo agora zombavam dele acorrentado. Eles pensavam que seu poder havia sido quebrado e sua história terminada. Eles o exibiam como prova de que seu deus Dagom era mais forte que o Deus de Israel.

Gaza era uma cidade principal dos filisteus, um lugar de orgulho e força, e Sansão foi arrastado para lá como um troféu. Outrora, ele havia saído daquela cidade com seus portões maciços erguidos sobre os ombros, humilhando-os em sua própria fortaleza. Agora, a mesma cidade se regozijava ao vê-lo cego, acorrentado e curvado sobre um moinho. Aquele que os fizera tremer era conduzido como um boi, circulando incessantemente para moer seu grão. A memória de seu triunfo em Gaza era fresca, mas parecia apagada por esta visão.

Cada dia naquela prisão era um lembrete do que havia sido perdido. Sansão ouvia o rangido da pedra de moinho, sentia a poeira da farinha em seu rosto e tropeçava na escuridão. O ciclo era interminável, girando e girando, como se toda a sua vida tivesse sido reduzida à futilidade. Era um retrato da própria Israel, que havia sido chamada para servir a Deus, mas estava escravizada aos ídolos, trabalhando em vão. Sua captura não era apenas uma desgraça pessoal, mas uma humilhação nacional. Israel teria ouvido falar da queda de seu juiz, aquele que havia começado a libertá-los e agora vivia como prisioneiro. Vê-lo zombado em Gaza era ver sua própria condição refletida de volta para eles.

A vergonha não recaiu apenas sobre Sansão. Sua derrota foi vista como a derrota do Deus de Israel. Os filisteus entenderam dessa forma, pois atribuíram sua vitória a Dagom. Para eles, a cegueira de Sansão não era meramente a fraqueza de um homem, mas o colapso da fé de Israel. A queda do libertador significava o triunfo de seu ídolo. Seu riso era dirigido tanto ao céu quanto a Sansão.

Mas o Deus de Israel não havia abandonado o seu servo. Aquele que governa todas as coisas dirigiu até mesmo essa queda para servir ao seu propósito. Os filisteus mantiveram Sansão vivo para humilhá-lo, mas, ao poupar sua vida, preservaram o próprio instrumento de sua destruição. Eles o acorrentaram, mas correntes não podiam conter o decreto de Deus. Eles o cegaram, mas ele nunca havia visto tão claramente como quando seus olhos se foram. O tormento que parecia encerrar o seu chamado o colocou em posição para o seu maior ato de fé.

O escritor de Juízes então adiciona uma linha simples, quase de passagem: O cabelo de Sansão começou a crescer novamente. O símbolo de sua consagração havia sido cortado em traição, mas com o tempo retornou. O cabelo em si não tinha força, mas era o sinal de seu voto, a marca de um chamado colocado sobre ele antes do nascimento. Embora Sansão tivesse quebrado esse voto de tantas maneiras, o sinal voltou para ele. O chamado irrevogável de Deus não pode ser cortado pelas falhas do homem.

Aquele pequeno detalhe era um sussurro de misericórdia na prisão. Os filisteus não notaram isso, mas o céu notou. Para o mundo, Sansão estava quebrado além da recuperação, mas o sinal invisível testemunhava o contrário. Mesmo quando Deus disciplina o seu povo, ele não revoga a sua aliança. Israel foi levado para o exílio, mas os profetas prometeram o seu retorno. Pedro negou Cristo, mas foi restaurado para liderar a igreja. Assim, Sansão, cego e moendo em Gaza, carregava na cabeça a evidência de que Deus não havia terminado com ele.

Havia um contraste gritante entre o cabelo de Sansão e os ídolos dos filisteus. Seu cabelo cresceu novamente, mas ídolos não podem restaurar nada. Quando o julgamento cai sobre os incrédulos, não há recuperação. Dagom não podia fazer crescer membros novamente, reconstruir templos ou ressuscitar os mortos. Somente o Deus vivo restaura o que o pecado destrói. No cabelo de Sansão estava o sinal de que as promessas de Deus duram mais que o fracasso humano.

Cristãos que tropeçam precisam deste lembrete. Muitos se desesperam após pecados graves, assumindo que seu lugar no plano de Deus foi perdido para sempre. Eles se imaginam rejeitados, desqualificados, sem esperança. Mas quando Deus chama, ele não retira seu dom. A disciplina pode ser severa, mas não é destruição. Os filisteus riram de Sansão, mas o Deus de Israel estava se preparando para rir deles. O que crescia invisível sob sua zombaria era o sinal do julgamento vindouro.

Os governantes dos filisteus se reuniram para uma grande festa. Eles se congregaram no templo de Dagom, trazendo sacrifícios e cânticos de louvor. Seus gritos ecoavam contra as paredes de pedra: “O nosso deus entregou Sansão em nossas mãos.” Eles repetiram isso novamente quando a multidão aumentou: “O nosso deus entregou em nossas mãos o nosso inimigo, aquele que devastou a nossa terra.” O que eles atribuíam a Dagom era, na verdade, o decreto do Senhor. Os filisteus viam a captura de Sansão como prova de que o seu deus havia triunfado, mas Deus os estava reunindo em um só lugar para o julgamento. Deus os tinha exatamente onde Ele os queria.

O templo era vasto, construído com pilares maciços de pedra, largo o suficiente para abrigar milhares em seu pátio e forte o suficiente para suportar milhares mais no telhado. O ar estava denso com incenso e os clamores dos adoradores. Os governantes estavam na frente, embriagados de orgulho e intoxicados com a idolatria. As multidões fervilhavam com alegria febril, convencidas de que Dagom havia feito o que o Deus de Israel não pôde. Era um festival nacional de orgulho, e seu clímax seria a humilhação de Sansão.

Os gritos de sua festa ressoavam. Todo coração se enchia de orgulho em Dagom, toda voz se gabava da vitória. É assim que a idolatria sempre funciona. Quando o povo de Deus tropeça, o mundo aponta para seus ídolos e reivindica vindicação. O orgulho pagão é fortalecido sempre que os crentes se comprometem. A desgraça de Sansão, aos olhos deles, era a desgraça do Deus de Israel. E assim eles se alegravam.

Eles queriam mais. A multidão exigia o próprio Sansão. Os governantes ordenaram que ele fosse trazido da prisão. Ele foi conduzido por um menino, tropeçando na cegueira. A mera visão dele fez a multidão rugir de riso. Outrora, ele os fizera tremer, agora zombavam de sua fraqueza. “Tragam Sansão para nos divertir”, clamaram, e assim ele foi colocado no meio deles. A diversão deles se tornou o seu palco. Eles pensavam que estavam exibindo a sua vitória, mas Deus estava preparando a ruína deles.

Sansão virou-se para o menino que o guiava. “Coloque-me onde eu possa sentir as colunas que sustentam o templo”, disse ele, “para que eu possa me encostar nelas.” O menino obedeceu, sem imaginar o que aconteceria. O barulho da festa os cercava. O cheiro de sacrifício pairava no ar. Os governantes dos filisteus estavam orgulhosos na frente, e as multidões enchiam o telhado acima. Sansão estava exatamente onde Deus o queria, entre as colunas do templo de Dagom, na presença de todos os governantes, diante da nação que observava.

Então Sansão orou. As palavras foram poucas, mas carregavam o fardo de sua vida. “Ó Soberano Senhor, lembra-te de mim. Ó Deus, fortalece-me só mais esta vez e faze que de uma só vez eu me vingue dos filisteus pelos meus dois olhos.” Ele não mais exigia como havia feito em Leí. Naquela ocasião, ele clamou: “Devo agora morrer de sede?” Ele estava confiante, mas irreverente e presunçoso, tratando o dom de Deus como algo devido. Agora ele falava com reverência. Ele se dirigia a Deus como soberano, confessava sua dependência e pedia para ser lembrado.

A frase “lembra-te de mim” tinha uma ressonância profunda na história do povo de Deus. Ana orou: “Ó Senhor dos Exércitos, se tu deres atenção à humilhação de tua serva, te lembrares de mim e não te esqueceres de tua serva, mas lhe deres um filho, então eu o dedicarei ao Senhor por todos os dias de sua vida, e o seu cabelo e a sua barba nunca serão cortados.” Neemias clamou: “Lembra-te de mim, ó meu Deus, para o meu bem.” O ladrão na cruz suplicou: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.” Pedir a Deus que se lembre não é temer que ele tenha esquecido, mas apelar para a sua fidelidade à aliança. Sansão orou no mesmo espírito. Ele acreditava que Deus não o havia rejeitado, e nessa crença encontrou a coragem para pedir forças mais uma vez.

Essa não foi uma solicitação tímida. Ele estava pedindo um milagre, um poder sobre-humano para derrubar um templo de pedra com os próprios braços, enquanto cego, amarrado e zombado. Ele havia perdido sua atitude de direito, mas sua fé permaneceu. Agora, confiança e reverência haviam se tornado uma só coisa em seu coração. A ousadia sem reverência o tornara imprudente. A reverência sem fé o teria deixado em silêncio na derrota. Esse é o tipo de falsa piedade exibida por quase toda pessoa que alega ser cristã hoje em dia. Mas tanto a confiança quanto a reverência enchiam o coração de Sansão. Sua fé havia sido aperfeiçoada. Sua oração final tornou-se o ato mais elevado de devoção em sua vida.

Essa união de reverência e confiança revela a essência da verdadeira oração. A fé não se encolhe como se tivesse medo de pedir, mas também não se pavoneia como se a promessa de Deus pudesse ser tratada com leviandade. Ela pede com ousadia porque confia na palavra de Deus, e se inclina humildemente porque honra a sua santidade. Muitos erram em uma direção ou na outra. Alguns oram sem ousadia, nunca ousando pedir mais do que o que parece modesto e provável. Outros oram sem reverência, aproximando-se de Deus com uma leviandade que o considera garantido. Homens sem fé tendem a defender o primeiro erro, e assim condenam Sansão para se justificarem. Mas entre os dois, Deus prefere o segundo, e por essa razão ele vindicou Sansão ao longo de sua vida e o justificou nas Escrituras. Sansão havia vivido por muito tempo nesse segundo erro, mas em seu último momento sua fé foi purificada. Ele pediu o que era impossível para o homem, certo de que Deus poderia fazê-lo, e pediu com um coração inclinado humildemente perante o soberano Senhor.

Sansão se firmou contra as colunas, uma mão em cada lado. Cego, zombado, cercado por inimigos, ele depositou toda a sua confiança no Deus que o chamou. Ele disse: “Que eu morra com os filisteus!”, e empurrou. O Espírito de Deus veio sobre ele com poder, e as pedras começaram a se mover. A fundação tremeu. O teto estremeceu sob o peso de três mil espectadores. Com um último impulso, o templo desabou. Os governantes foram esmagados. O povo foi sepultado nas ruínas de sua própria festa. O deus que eles louvavam não pôde salvá-los. O templo de Dagom tornou-se o túmulo de seus adoradores.

O escritor acrescenta: “Assim, na sua morte, Sansão matou mais gente do que em toda a sua vida.” Seu ato final superou toda a sua carreira. Isso não foi suicídio por desespero. Foi sacrifício em fé. Ele nasceu para iniciar a libertação de Israel, e em sua morte cumpriu esse chamado. Deus havia decretado que o último suspiro de Sansão seria seu maior triunfo. A humilhação de Gaza tornou-se a hora do julgamento sobre os filisteus. Pela fraqueza veio a força. Pela morte veio a vitória.

Sua família resgatou seu corpo e o sepultou no túmulo de seu pai. O registro conclui: “Sansão liderou Israel durante vinte anos.” Essa linha final serve como selo de vindicação. Sua vida, longe de ser apagada por seus fracassos, foi coroada por sua fé. A vergonha de Dalila desvaneceu, e o colapso do templo de Dagom tornou-se seu ato definidor. As Escrituras o lembram por aquela vitória e o honram entre os fiéis.

A fé é mais forte que o fracasso. Sansão era apaixonado, imprudente e tolo, mas a fé perdurou nele. A disciplina de Deus removeu sua arrogância até que a confiança e a reverência se uniram. Ele foi forçado a se voltar para dentro e refletir, e começou a ver Deus mais claramente do que nunca. Em sua fraqueza, ele se apoiou inteiramente na força divina e tornou-se mais forte do que nunca, tanto fisicamente quanto espiritualmente. Em sua morte, ele realizou mais do que em sua vida. É por isso que as Escrituras dizem que ele obteve aprovação pela fé.

A morte de Sansão prefigura Jesus Cristo. Sansão estendeu os braços e pressionou contra as colunas; Cristo estendeu os braços na cruz. Sansão morreu destruindo os governantes dos filisteus; Cristo morreu desarmando os governantes e as autoridades das trevas. A morte de Sansão vingou os seus próprios olhos; a morte de Cristo abriu os olhos dos cegos. Sansão matou mais na morte do que em vida; Cristo salvou multidões na morte que nunca poderiam ter sido salvas apenas pela sua vida. Sansão trouxe julgamento; Cristo trouxe salvação. Sansão foi lembrado pela fé em sua última hora; Cristo é exaltado como o autor e consumador da fé por todos os tempos.

Os contrastes são tão instrutivos quanto os paralelos. Sansão foi amarrado por causa do seu pecado; Cristo foi amarrado por causa do nosso pecado. Os olhos de Sansão foram arrancados porque ele seguiu seus desejos; o rosto de Cristo foi golpeado porque ele seguiu a vontade de Deus. A morte de Sansão derrubou um templo de ídolos; a morte de Cristo destruiu os poderes de Satanás. Sansão caiu entre os escombros de seus inimigos; Cristo ressuscitou do túmulo, para nunca mais morrer. Sansão libertou Israel apenas em parte; Cristo realizou a redenção de uma vez por todas. Sansão apontou para o futuro; Cristo cumpriu toda sombra e profecia, incluindo o que Sansão significava.

Deus coloca Sansão junto com Abraão e Moisés, com Davi e os profetas, porque ele teve fé. O mundo não era digno dele. Sansão era solitário, incompreendido e zombado. Seus pais o incompreenderam, suas amantes o manipularam, seus compatriotas o traíram, até mesmo os cristãos agora o desprezam. Mas Deus o aprovou. Sua fé perdurou até o fim, e na morte ele cumpriu seu chamado. Sua história nos chama para o mesmo: viver com confiança no poder e na misericórdia de Deus, reverência por sua santidade e certeza de que seus propósitos não podem falhar.

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