O Deus da Razão e da Criação
Paulo e os Filósofos
O Deus da Razão e da Criação
“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se precisasse de algo, pois ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas.” (Atos 17:24–25)
Paulo se posicionou diante do conselho e começou com a afirmação mais elevada possível. Ele não descreveu uma divindade local nem introduziu um novo ídolo para ser colocado entre os outros. Ele falou do Deus que fez o mundo e tudo o que nele há. Isso imediatamente tornou todo o sistema ateniense absurdo. Se um único Deus criou tudo, então todos os seus templos, imagens e altares eram invenções de homens que confundiram suas imaginações com divindade.
Dizer que Deus fez o mundo é afirmar que o universo não é eterno e não é autossuficiente. A matéria não existia por si só, e não se formou em estrelas e planetas por movimento cego. Os atenienses herdaram tradições de matéria eterna e ciclos de ordem e caos. Alguns filósofos falavam de acaso combinando átomos. Outros falavam de um princípio racional que organizava o que já existia.
Ambas as visões são falsas. Se o mundo é eterno, então sua estrutura é eterna, e não haveria razão para que ele mudasse para um estado diferente, o que significa que não estaríamos na condição que agora observamos. Se os átomos se combinam por acaso, então não há razão para que eles produzam ordem em vez de caos, ou por que nossas mentes poderiam confiar em qualquer padrão que venha deles. Se algum princípio racional é dito ordenar a matéria, então ele deve ser autoexistente, ou precisaria de uma explicação fora de si mesmo, e deve ser pessoal, porque uma regra impessoal não pode se aplicar a si mesma. Ordem e significado, por definição, pressupõem mente, de modo que o único fundamento racional é a mente de Deus.
Paulo cortou o absurdo e declarou a única explicação racional: o Deus que fez o mundo e tudo o que nele há. Isso resolve um dos enigmas mais antigos da filosofia, a relação entre unidade e diversidade. O mundo é ao mesmo tempo um e muitos. É um sistema com incontáveis partes. Ele mostra unidade em sua estrutura e variedade em seu conteúdo.
Se o mundo é regido pelo acaso, então tudo acontece de forma aleatória, e não há razão para que as partes da realidade se encaixem. Uma árvore, uma estrela e um pensamento em sua mente não teriam conexão entre si. O mundo não formaria um sistema, apenas fragmentos dispersos. Mas se isso fosse verdade, até mesmo o pensamento de que o mundo é regido pelo acaso seria nada mais do que um evento aleatório, e ninguém poderia confiar nele como conhecimento.
Se o mundo é regido por uma necessidade impessoal, então tudo está preso a um padrão inflexível. Mas isso torna a individualidade impossível. Uma pedra, um pássaro e uma pessoa não poderiam ser verdadeiramente distintos, porque todos seriam nada mais do que a mesma força se expressando em formas diferentes. Não haveria variação real, e nenhuma explicação para por que o mundo exibe tal gama de coisas particulares.
Apenas o Criador explica por que o mundo é ao mesmo tempo ordenado e variado, uno e múltiplo, unificado sem perder sua riqueza. Toda alternativa termina em contradição, mas a revelação fornece uma explicação coerente.
O pensamento não cristão moderno repete os mesmos erros. Os cosmólogos falam do Big Bang como se ele tivesse surgido sem causa, ou multiplicam universos para evitar a questão da origem. Eles substituem Zeus e Apolo por flutuações quânticas e teoria do multiverso, mas o absurdo permanece o mesmo. Algo não pode vir do nada. Se o acaso é a origem, então o acaso também governa todo pensamento, e a razão se destrói a si mesma.
Se a necessidade é a origem, então todo evento está preso a uma força cega, e não pode haver distinção verdadeira entre o conhecedor e o conhecido, nem individualidade real, nem base racional para o conhecimento de modo algum. Mas se não há distinção entre aquele que conhece e a coisa conhecida, então o conhecimento em si é impossível, pois conhecer requer diferença. Se toda a realidade é apenas um processo inflexível, então até mesmo o pensamento de que a necessidade governa é engolido pelo mesmo processo, e não pode ser confiado como conhecimento.
As palavras de Paulo confrontam não apenas a antiga Atenas, mas também os laboratórios e salas de aula de hoje. Somente a revelação de Deus nos dá um início coerente. O acaso não pode explicar a ordem, porque a aleatoriedade destrói o próprio raciocínio usado para reivindicá-lo. A necessidade impessoal não pode explicar o conhecimento, porque apaga a distinção entre o conhecedor e o conhecido. Mas o Deus que é pessoal e triúno conhece a si mesmo com conhecimento perfeito, e ao criar o mundo ele estabelece a distinção entre Criador e criatura que torna o conhecimento humano possível. Nele há tanto unidade quanto diversidade, ordem e significado, mente e mundo, de modo que a razão tem um fundamento. Todo outro sistema se destrói a si mesmo, mas somente a revelação fornece o fundamento racional para o conhecimento e a vida.
Paulo então chamou Deus de Senhor do céu e da terra. Isso negava todo o panteão de poderes divididos. Os gregos pensavam que um deus governava o mar, outro o céu, outro a guerra, outro a fertilidade. Seus templos refletiam a ideia de jurisdição local. Paulo declarou um Senhor que possui e governa tudo. Isso significa que os céus e a terra não são domínios separados, e não há áreas fora da autoridade de Deus. Toda a estrutura da realidade pertence a ele.
Confessar Deus como Senhor do céu e da terra é confessar a providência divina. Todo evento na natureza e toda ação do homem estão sob seu controle imediato. Não há lugar onde as leis da natureza operem por si mesmas. O que as pessoas chamam de leis são apenas as maneiras regulares pelas quais Deus age. Pensar na natureza como independente é atribuir divindade à ordem criada e fingir que o universo se sustenta a si mesmo. Esse foi o pecado de Atenas, e é o pecado da ciência moderna. Ambos fingem que o homem pode estudar o mundo sem se curvar ao Senhor que o governa. Ambos imaginam que uma visão de mundo racional pode se sustentar à parte da revelação, mesmo que todo ato de razão dependa do Deus que sustenta a mente que raciocina.
Deus também define a ordem moral. Se ele governa o céu e a terra, então todo padrão de justiça e bondade vem dele. Negar o seu governo é negar a própria moralidade. Uma vez que o homem separa a lei moral do Senhor do céu e da terra, ele fica com costumes arbitrários e opiniões mutáveis. As culturas afundam no relativismo porque não têm autoridade absoluta para o certo e o errado. No entanto, os mesmos incrédulos que insistem que a moralidade é relativa não conseguem deixar de condenar o que desprezam como se fosse absolutamente errado. Isso expõe a contradição deles: eles negam a moralidade absoluta em teoria, mas a assumem na prática. Somente Deus fornece uma base racional para a ética, e somente a revelação torna essa base conhecida. Os incrédulos não podem defender a justiça enquanto negam o Juiz de todos.
Então, Paulo disse que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. Atenas se orgulhava de sua arquitetura. O Partenon erguia-se acima da cidade como um símbolo de beleza e poder. Santuários e altares estavam em todas as ruas. Os atenienses pensavam que podiam confinar o divino a estruturas de pedra, madeira e ouro. Paulo confrontou essa tolice. Se Deus criou o céu e a terra, então ele não pode ser contido em uma casa construída por homens. O infinito não pode ser encaixotado no finito. O Criador do espaço não pode ser encerrado em um canto dele.
Toda tentativa de localizar Deus por meio de construções humanas é idolatria. Alguns constroem catedrais e afirmam que a presença de Deus reside dentro de suas paredes. Outros exaltam um santuário ou ritual como o único ponto de encontro com o céu. Ainda outros imaginam que Deus está preso a uma hóstia ou a um santuário. Tudo isso é o mesmo erro de Atenas. Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. Ele está presente em todos os lugares, e se faz conhecido por meio de sua palavra e de seu Espírito. O homem que pensa que Deus está preso em seu edifício inventou um deus de pedra. O verdadeiro Deus não pode ser contido.
Paulo continuou: Ele não é servido por mãos humanas, como se precisasse de algo. Isso ataca a raiz da religião centrada no homem. Os atenienses pensavam que, por meio de sacrifícios e ofertas, mantinham os deuses satisfeitos e garantiam o bem-estar da cidade. Eles acreditavam que a adoração era uma forma de suprimento, como se os deuses carecessem de comida, bebida ou honra, a menos que os homens os fornecessem. Paulo declarou o oposto. Deus não depende do serviço humano. Ele não precisa de nada do homem. Pensar de outra forma é degradar Deus ao nível de um mendigo que depende da criatura que ele mesmo criou.
Esse erro persiste na religião moderna. Até mesmo pregadores supostamente cristãos dizem às pessoas que Deus é solitário e anseia por companhia, que ele espera pela permissão do homem antes de poder agir, ou que seus planos falham sem a cooperação humana. Eles fazem Deus soar necessitado, fraco e dependente. Tal ser não seria Deus de forma alguma. O Criador que deu vida ao homem não pode requerer a contribuição do homem para se completar. E até mesmo as versões mais austeras da religião centrada no homem caem na mesma armadilha quando afirmam que a fraqueza ou o sofrimento humano glorifica Deus, como se sua majestade fosse exibida pela miséria de suas criaturas. Todos esses esquemas reduzem Deus a um ser dependente. Deus é autoexistente, autossuficiente e completo em si mesmo. Ele age a partir de sua própria vontade e poder, não por falta.
O culto pagão apresenta o homem como benfeitor e Deus como receptor. Os deuses esperam ser supridos. O evangelho inverte isso completamente. O Deus que não precisa do homem resgata e abençoa o homem. Ele dá vida, revelação e salvação. Ele deu seu Filho pelos pecadores. Isso expõe a religião centrada no homem como irracional e perversa. Ela pede que a criatura sustente o Criador, enquanto a revelação de Deus mostra o Criador sustentando a criatura.
Paulo acrescentou que o próprio Deus dá a todos a vida, o fôlego e tudo o mais. Essa declaração positiva coloca o homem em seu devido lugar. Cada respiração vem de Deus. Cada batida do coração é causada por ele. Cada pensamento na mente depende de sua ação imediata. A dependência de Deus não é parcial ou ocasional. Ela é total, contínua e absoluta. Os atenienses viviam cada momento pelo poder do Deus que ignoravam. Sua idolatria não era apenas maligna, mas insana, porque rejeitavam exatamente aquele que sustentava cada respiração deles.
Essa dependência se estende à parte mais profunda da experiência humana: a consciência em si. A matéria sozinha não pode pensar. Se os pensamentos são apenas átomos em movimento, então eles não podem ser sobre nada, e não podem ser verdadeiros ou falsos. Mas os homens pensam, raciocinam e buscam a verdade. Eles interpretam a realidade e fazem perguntas sobre o significado. Isso mostra que a vida é mais do que biologia e mais do que química. A consciência racional é o dom direto de Deus, que fez o homem à sua imagem. O materialismo se cala diante do fato da consciência, mas a revelação a fundamenta na Razão pessoal que fez o homem para conhecer.
Isso é um princípio essencial na apologética cristã. O incrédulo rejeita Deus enquanto está no terreno de Deus, respira o ar de Deus e usa a lógica de Deus. Ele deve tomar emprestado da cosmovisão cristã até mesmo para construir suas objeções e alternativas. Quando ele fala de verdade, assume o Deus da verdade. Quando ele raciocina, assume o Deus que é a Razão. Quando ele argumenta contra a fé, deve usar a vida e o fôlego dados pelo Deus ao qual se opõe. Isso é a depravação e a insanidade no cerne do pensamento não cristão. A tarefa da apologética é expor isso, mostrando que todo argumento contra Deus é auto-refutável, que toda objeção contra Cristo depende de Cristo ser verdadeiro, e que a revelação de Deus nas Escrituras sozinha se ergue como o fundamento da razão e da vida.
A declaração de Paulo não deixa alternativa. Se Deus é o Criador do mundo, então o ateísmo e a idolatria são destruídos. Se ele é Senhor do céu e da terra, então a autonomia humana é derrubada. Se ele não habita em templos, então toda religião feita pelo homem é exposta como falsa. Se ele não é servido por mãos humanas, então todo esquema que torna Deus dependente é absurdo. Se ele dá vida, respiração e tudo o mais, então o naturalismo é mostrado como irracional. O Areópago ouviu a morte de seus sistemas em poucas frases.
Somente o Deus da revelação fornece uma visão de mundo verdadeira e coerente. Ele explica a origem do universo, a ordem da natureza, a estrutura da razão e a dependência do homem. Ele é infinito e autossuficiente, mas próximo de todos, sustentando a vida a cada momento. Sua revelação é autoautenticadora, porque negá-la é usar o próprio fôlego e lógica que dependem dele. Nenhum sistema rival pode se sustentar.
O cristão pode dizer ao idólatra: o seu templo não tem significado, porque Deus não pode ser contido. Ele pode dizer ao cientista secular: o seu universo não pode existir sem o Criador que você nega. Ele pode dizer ao religionista: o seu deus não é deus se ele precisa do seu serviço e da sua miséria. Ele pode dizer a todo incrédulo: você respira o ar do Deus que rejeita, e não pode dar um passo sem ele. Estas não são afirmações abstratas, mas refutações concretas que expõem a irracionalidade de toda alternativa.
No Areópago, Paulo colocou Atenas em julgamento. Sua cultura de ídolos, sua filosofia de poderes divididos, seu orgulho em templos e sua religião de ofertas caíram todos diante da revelação de Deus como Criador e Senhor. Ele declarou um Deus que não pode ser reduzido, contido ou sustentado pelo homem, mas que dá vida e fôlego a todos. Isso não era uma adição ao seu panteão. Era uma derrubada total de sua visão de mundo.
O homem moderno constrói seus templos de ciência e política, imagina autonomia em sua ética e finge que a natureza funciona por si só. Ele exalta a razão enquanto a separa de sua base em Deus. Ele se orgulha do progresso enquanto depende da vida e do fôlego que Deus lhe concede. As palavras de Paulo o expõem, assim como expuseram Atenas. Todo sistema rival ou carece de justificativa racional ou se destrói logicamente. Há apenas uma opção racional: confessar o Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, que é o Senhor do céu e da terra, que não habita em santuários feitos por mãos humanas e que não é servido por mãos de homens, como se precisasse de algo, pois ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas.
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