O Deus do Homem e das Nações

Paulo e os Filósofos

O Deus do Homem e das Nações

“De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos previamente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar.” (Atos 17:26)

Atenas gloriava-se em seu passado. Os atenienses acreditavam ter surgido de seu próprio solo, sem mistura de forasteiros, e portanto mais nobres do que aqueles que chamavam de bárbaros. Esse mito de auto-origem dava-lhes um senso de elevação e uma justificativa para tratar os outros como inferiores. Paulo enfrentou tal arrogância diretamente quando declarou que todas as nações descendem de um só homem. Suas palavras não apenas expuseram a ignorância de Atenas, mas também anunciaram uma verdade que contradiz toda forma de presunção humana, tanto antiga quanto moderna.

A afirmação é simples, mas profunda. Se todos os homens descendem de um só homem, então nenhuma nação ou raça pode reivindicar superioridade de origem. Se Deus determinou os tempos e os lugares das nações, então nenhum povo pode reivindicar autonomia na história. O versículo desmantela o orgulho étnico e a autoexaltação política. Ele também ataca fábulas como a evolução, que negam uma única origem humana em Adão. A frase de Paulo fornece uma base racional para entender a humanidade e as nações, enquanto todas as narrativas concorrentes se desintegram em incoerência.

Os atenienses contavam mitos de que eles sozinhos haviam brotado de seu solo, superiores àqueles que chamavam de bárbaros. Tais relatos são irracionais porque não conseguem sustentar as próprias categorias que os atenienses usavam. Eles falavam de gregos e bárbaros como homens, colocados em contraste sob um único conceito. Aplicar o mesmo termo a grupos pressupõe uma essência compartilhada. Se as origens não estão relacionadas, então não há uma natureza única para o termo abranger. Por meio de sua própria fala, eles assumiam a unidade que negavam. E, uma vez que essa unidade é negada, as consequências se estendem por toda parte. As categorias dependem de uma identidade compartilhada. Falar da humanidade em si requer que haja uma origem, uma natureza, uma raça humana. Sem isso, sua própria linguagem perde o sujeito, seu pensamento perde a continuidade, e as próprias histórias que contam sobre os homens perdem a coerência. A revelação cristã assegura o que o mito deles minava, pois todos descendem de Adão.

Um conceito funciona apenas quando se baseia em uma identidade fixa. Os atenienses traíram a si mesmos ao falar de gregos e bárbaros como homens enquanto negavam que ambos vinham da mesma origem. O ponto se estende ainda mais. Quando falamos de justiça, a palavra deve se aplicar à Assíria e a Roma, a cortes antigas e modernas. Quando falamos de casamento, ele deve unir um pastor e um erudito da mesma forma. Quando falamos de lei, ela deve restringir tanto o rei quanto a criança. Tais predicados assumem um sujeito que eles descrevem verdadeiramente. Se a humanidade consistisse de várias naturezas não relacionadas, cada predicado se fragmentaria em significados locais sem direito de se estender além de fronteiras ou épocas. A própria gramática das reivindicações universais pressupõe uma raça humana com uma origem.

A fé cristã assegura essa unidade ao ensinar que todos os homens descendem de Adão, e assim preserva a possibilidade de conhecimento e discurso moral. Deus criou Adão do pó, soprou nele o fôlego de vida, e de Adão vieram todos os homens. Essa origem explica por que a humanidade pode ser abordada como uma só e por que os mandamentos de Deus obrigam a todos igualmente. Ela dá razão para a responsabilidade universal, pois a mesma natureza que pecou em Adão aparece em todo homem. Ela dá razão para a história universal, pois o mesmo tipo de ser habita toda nação e era. Ela dá razão para a lei universal, pois a justiça fala com uma só voz através de terras e séculos. Qualquer outra explicação divide a realidade em fragmentos, deixando nenhum sujeito coerente para o pensamento, nenhum terreno compartilhado para o julgamento e nenhuma base racional para a história.

Se todos os homens compartilham uma origem comum, então a presunção de superioridade étnica é destruída. Os atenienses desprezavam os não gregos como bárbaros, mas a doutrina de Paulo declarava que eles compartilhavam o mesmo ancestral, carregavam a mesma imagem de Deus e portavam a mesma corrupção do pecado. Isso retirava todo o fundamento para o orgulho racial. As alegações de natureza superior transformam-se em raciocínio circular, pois o padrão de medição é sempre extraído do próprio grupo que afirma sua grandeza. A tentativa apenas exalta a preferência como se fosse verdade, e assim se refuta a si mesma. Mude o grupo e a medida muda com ele, deixando nenhum critério que vincule a todos. A tentativa de exaltar um povo sobre outro refuta a si mesma, pois o ato de comparação já assume a humanidade compartilhada que nega.

Reivindicações de superioridade ocultam um truque metodológico. Um grupo inventa um padrão que favorece seus próprios traços, trata esse padrão como se fosse neutro e, em seguida, concede a si mesmo a coroa. Mude o padrão e as classificações mudam. Ninguém pode produzir um critério que vincule todos os povos, a menos que Deus fale. A Escritura declara uma imagem de Deus na linhagem de Adão. Vantagens culturais existem, mas não alteram a natureza. Habilidade em arte ou ofício não eleva um povo acima de outro em essência. Origem compartilhada, imagem compartilhada e ruína compartilhada sob o pecado destroem toda pretensão de orgulho e a expõem como ilusão.

Formas modernas de orgulho racial sofrem da mesma irracionalidade. Teorias sociais que classificam raças ou culturas não podem produzir uma norma universal que vincule todos os homens. Elas introduzem furtivamente a preferência humana como se fosse um decreto divino. A revelação cristã explica o assunto sem contradição: todo homem carrega a imagem de Deus, todo homem descende de Adão, e todo homem compartilha a corrupção do pecado. Isso deixa a humanidade em terreno nivelado perante Deus, sem que nenhum homem seja exaltado sobre outro. O que os homens exibem como superioridade não é nada mais do que autoengano, despojado de qualquer pretensão à verdade.

A frase de Paulo “de um só homem” não confronta apenas os mitos de Atenas. Ela também confronta as narrativas evolutivas da origem humana. A evolução nega um ancestral único ao imaginar uma mudança gradual a partir de animais, linhas ramificadas de descendência e espécies em mutação. No entanto, as supostas evidências nunca se somam a uma história clara. Os fósseis são fragmentários, as reconstruções mudam a cada geração, e as comparações genéticas não provam nada, pois suas conclusões são introduzidas de forma dissimulada pelas suposições evolutivas usadas para interpretá-las. Mesmo que as evidências fossem abundantes, a indução nunca poderia produzir uma conclusão necessária. A teoria se derrota a si mesma, pois não consegue definir o que é “homem”, onde está o limite ou como a categoria se mantém coesa.

A evolução depende do empirismo e da indução. Ela pega fragmentos de evidência, como ossos ou semelhanças genéticas, e extrapola histórias inteiras a partir deles. Mas a indução nunca pode produzir verdade necessária. A história deve mudar sempre que novos fragmentos aparecem, e é por isso que as narrativas evolutivas revisam constantemente suas linhas do tempo, mecanismos e diagramas. Uma teoria que muda com cada novo fóssil não é verdade, mas imaginação. Isso mostra que a evolução carece de princípios primeiros fixos e toma emprestada a estabilidade do quadro cristão que rejeita.

Pior ainda, se o pensamento humano em si é o produto de mutações aleatórias moldadas pela sobrevivência, então a mente não é projetada para a verdade, mas apenas para a sobrevivência. Uma mente moldada por forças cegas não tem direito de ser considerada confiável no raciocínio. Se a evolução fosse verdadeira, então a própria teoria da evolução não poderia ser confiável, pois seria o subproduto de um processo não racional. A evolução se autossabota. Em contraste, a revelação de Deus explica por que a razão funciona, pois o homem foi criado à imagem de Deus e adaptado para a verdade.

Um segundo defeito surge quando a evolução tenta explicar categorias. A teoria nos pede para falar sobre “humanidade” como uma classe única, ao mesmo tempo em que traça muitas linhas ramificadas sem uma única cabeça. Se não há uma única cabeça, então a classe “humanidade” carece de um limite principista. A teoria deve ou tratar “humano” como um rótulo deslizante que se move por conveniência, ou deve contrabandear uma essência fixa de fora de seu próprio método. Ambas as abordagens concedem o argumento. A primeira abandona os universais. A segunda toma emprestado da revelação. Uma doutrina que começa com Adão como o primeiro homem evita essa confusão e fornece o fundamento que a ciência assume silenciosamente toda vez que nomeia a humanidade como uma só.

A visão de mundo cristã exclui a fantasia da evolução. A palavra de Deus declara que ele formou o homem diretamente do pó, soprou nele o fôlego de vida e o tornou o ancestral de todas as nações. Somente essa verdade dá coerência à categoria “humanidade” e permite um discurso racional sobre o homem. A evolução contradiz a revelação e se desintegra em incoerência. A doutrina bíblica de Adão aniquila a antropologia evolutiva como irracional, arbitrária e falsa.

A declaração de Paulo passa da origem para a história. As nações não apenas descendem de um só homem, mas sua própria existência no tempo e no espaço é determinada por Deus. Ele determina os seus tempos e fixa os seus lugares.

A determinação de Deus explica o curso da história. As nações surgem porque ele as faz surgir, elas perduram enquanto ele as sustenta, e elas caem quando ele as derruba. Seus inícios não são escolhidos por si mesmas, e seus fins não são acidentes. A geografia, a economia e a força militar não podem explicar o momento em que um povo entra em cena ou sai dela. Esses fatores são secundários. Eles têm influência apenas conforme Deus os dirige. Paulo deixa claro que a vida de uma nação depende da decisão de Deus, que determina tanto sua duração quanto seu lugar de habitação.

A história é uma cadeia de atos específicos — exércitos marchando, governantes decretando, povos migrando, tratados sendo formados, revoltas irrompendo. Nenhum desses se une ao próximo por sua própria necessidade. Eles se unem porque Deus ordena sua sequência. Exércitos têm sucesso porque ele lhes concede a vitória. Reis reinam porque ele determina o prazo de seu governo. Fronteiras mudam porque ele as redesenha, e impérios desaparecem porque ele encurta seus dias. As ações humanas permanecem reais, mas servem como instrumentos. Sua ordem e resultado vêm de Deus, que decide sua conexão.

Isso desafia a vaidade das narrativas humanas da história. Impérios se exaltam como senhores de seu destino. Filósofos imaginam que a história se desenrola por meio do progresso, do destino ou do acaso. Políticos falam como se suas nações determinassem seu próprio curso. Cada explicação se dissolve em irracionalidade. Nenhuma entidade mutável e composta pode fornecer o fundamento da história. Somente Deus, que determina tempos e lugares, fornece uma explicação racional para o curso das nações.

O impulso pela autonomia está no cerne da rebelião humana. As nações frequentemente agem como se suas decisões não admitissem apelo superior. Mas a reivindicação de autonomia é incoerente. Ser autônomo é existir sem dependência e sem explicação além de si mesmo. Nenhuma nação se encaixa nessa descrição. Cada uma depende de recursos que não produziu, fronteiras que não estabeleceu e histórias que não projetou. Quando uma nação reivindica autonomia, ela reivindica divindade, e tal reivindicação é obviamente falsa.

A mesma recusa de Deus aparece nas teorias políticas modernas. Considere a democracia. Se a democracia for tratada como a autoridade final, a verdade se torna uma questão de contar cabeças. Mas a opinião da maioria muda com o tempo e as fronteiras, e portanto não pode ser última. O nacionalismo torna a tribo ou o estado a autoridade final, mas não pode explicar por que suas fronteiras ou padrões deveriam vincular os outros. O globalismo nega as fronteiras e reivindica autoridade sobre todos, mas não pode justificar por que seus decretos deveriam vincular nações dissidentes. Cada sistema reivindica ultimidade enquanto nega o Deus que sozinho a possui. Cada um rouba atributos do governo divino e, assim, se mina a si mesmo.

A democracia toma emprestado a universalidade de Deus. Ela assume que, quando muitas vozes se combinam, elas podem funcionar como uma única voz suprema. O nacionalismo toma emprestado a permanência de Deus. Ele trata suas fronteiras como fixas, no entanto, a história mostra que os limites mudam e impérios surgem e caem. O globalismo toma emprestado o alcance de Deus. Ele reivindica autoridade sobre todas as nações, mas carece do direito de impor seus decretos. Esses movimentos roubam atributos divinos enquanto negam a fonte, e assim exibem sua própria incoerência.

Peça a qualquer teoria de autoridade que explique por que seu julgamento obriga aqueles que a rejeitam. Se a resposta apela para números, o resultado muda a cada votação. Se apela para a força, então o conquistador de amanhã derruba o decreto de hoje. Se apela para o costume, não pode dirigir um vizinho que não compartilha esse costume. Somente uma lei que fala de cima dos povos e das eras pode reivindicar jurisdição universal. O governo de Deus fornece essa âncora. Ele dá significado a limite, virtude e justiça. Remova-o e essas palavras se tornam ruídos que o poder arranja para o momento.

A declaração de Paulo fornece uma visão coerente da humanidade e das nações. A unidade surge de uma origem em Adão. A diversidade surge da determinação de Deus dos tempos e lugares. Ambas são necessárias para o discurso racional. Sem unidade, não há sujeito coerente “humanidade”. Sem diversidade, não há história ou ordem entre as nações. Mitos pagãos e teorias modernas falham porque negam ou a unidade ou a diversidade, ou tentam manter ambas sem uma base suficiente.

A doutrina cristã sozinha garante ambos. Ela começa com a revelação de Deus como verdade auto-autenticadora. A partir dessa fundação, deduzimos que a humanidade é uma, que as nações são muitas, e que ambos são ordenados pelo decreto de Deus. Isso torna possível uma visão de mundo racional e abrangente.

A declaração de Paulo também instrui o leitor sobre como raciocinar a respeito da vida pública. Comece a partir do que Deus disse. Deduza o que se segue para a natureza do homem, o surgimento e a queda das nações, e os limites do governo. Confronte relatos concorrentes no nível dos primeiros princípios. Exija o fundamento deles para os universais, a identidade e a autoridade. Mostre como cada teoria toma emprestado da revelação quando precisa de coerência e nega a revelação quando deseja independência. Em seguida, coloque os bens emprestados de volta em seu lugar apropriado. A unidade da humanidade e a determinação das nações repousam na palavra de Deus, e somente ali permanecem firmes.

A visão de mundo cristã despedaça a arrogância ateniense e a pretensão moderna. Ela nega a superioridade étnica, refuta as fábulas evolutivas e derruba a vaidade da autonomia política. Ela afirma a unidade da humanidade em Adão e a diversidade das nações sob o decreto de Deus. Ela fornece coerência para a identidade humana, a história e a geografia.

Sem revelação de Deus, o pensamento do homem se desintegra em mito, contradição e especulação arbitrária. Com a revelação, há uma base para uma cosmovisão verdadeira e racional. Deus fez todas as nações a partir de um só homem, determinou seus tempos, fixou seus lugares e ordenou a história de acordo com o seu plano. Isso é necessidade racional, verdade revelada e a única explicação para o mundo que vemos.

📖 Artigo original:

The God of Man and Nations ↗