O Deus da Vida e do Ser
Paulo e os Filósofos
O Deus da Vida e do Ser
“Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.’ Como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele.’ Portanto, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem.” (Atos 17:27–29)
Atenas estava no auge da especulação humana. Seus templos estavam cheios de imagens de deuses, suas escolas estavam cheias de palavras de filósofos, e seus cidadãos estavam confiantes de que podiam definir a realidade por meio de sua própria sabedoria. Nessa atmosfera, Paulo anunciou que Deus havia ordenado o mundo, moldado nações e dirigido a história para que os homens pudessem buscá-lo. O propósito do mundo não era a autoexibição humana, mas o conhecimento divino. As nações haviam sido estabelecidas em seus tempos e lugares pelo desígnio de Deus, e o resultado apropriado era que os homens olhassem para cima, para aquele que havia arranjado seus passos.
Isso transformou a confiança dos atenienses em condenação. Eles se consideravam buscadores sábios, traçando caminhos de especulação que abrangiam séculos. Paulo os descreveu, em vez disso, como tateando no escuro. Suas mentes não os aproximavam de Deus, mas os deixavam tropeçando como cegos estendendo as mãos para o que não podiam ver. Mesmo assim, Paulo acrescentou que Deus estava perto de cada um deles. Ele não estava ausente do mundo. Ele não estava escondido em alguma região remota do céu, nem estava confinado dentro de templos. Ele sustentava a própria existência deles. Falar, mover-se, respirar e até mesmo pensar só era possível porque Deus os sustentava.
A proximidade de Deus era mais do que uma questão de geografia. Paulo não estava dizendo que Deus poderia ser alcançado ao caminhar até um templo ou escalar uma montanha. Sua proximidade era metafísica. Cada batimento cardíaco dependia dele. Cada pensamento pressupunha sua ordem. Cada palavra era carregada no sopro que ele fornecia. Ele era mais próximo do que os ídolos em seus santuários, mais próximo do que os filósofos em suas academias, mais próximo do que as próprias sensações de tato e visão. Os homens não precisavam atravessar mares ou ascender a alturas para encontrá-lo, pois já viviam em sua presença e poder.
Essa verdade também é epistemológica. Os homens não podem raciocinar sem Deus. Quando a mente interpreta uma cena, compreende a identidade e a relação, e traça a causa e o efeito, ela se baseia em uma estrutura que a experiência não fornece. Categorias como número, continuidade e lógica não são invenções dos homens. Elas são a ordem da própria mente de Deus, refletida na estrutura da realidade e impressa na mente humana. Quando Paulo disse que Deus não está longe de cada um de nós, ele deve ter incluído o fato de que todo ato de pensamento já pressupõe o Deus que sustenta o pensamento. Os atenienses imaginavam que a razão poderia levá-los a Deus, mas a razão em si só era possível porque Deus já estava perto.
Paulo reforçou suas palavras com a declaração: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.” Essa era uma linha de um dos poetas deles, e Paulo usou as próprias palavras deles contra eles, transformando o fragmento em testemunho da verdade. Uma vez separado de suas associações pagãs, as palavras direcionam a atenção para o Deus que sustenta todas as coisas. Isso vai mais fundo do que a criação no início. Fala de preservação contínua. O mundo não funciona por si só, como um relógio que foi dado corda e deixado para bater. A existência depende de Deus a cada momento. Sem o seu ato, o mundo desapareceria. Sem a sua vontade, os homens não teriam pensamento, nem fôlego, nem passo. Negar Deus é afirmar os produtos do seu poder enquanto rejeita a sua fonte. É como desfrutar do calor do fogo enquanto insiste que não existe chama.
A declaração tem três partes, cada uma repleta de significado. “Nele vivemos.” A vida não é autossustentável. Os organismos não se explicam por si mesmos. É absurdo sugerir que a vida surgiu da matéria por acaso, porque o acaso não é uma coisa ou uma causa, e porque a matéria, permanecendo o que é, não tem poder para produzir consciência. A vida existe porque Deus a concede, momento a momento. “Nele nos movemos.” Toda ação pressupõe continuidade e relação. Um passo, um gesto, uma palavra falada, tudo isso são fios em um tecido tecidos pelo poder ordenador de Deus. Se Deus retirasse sua mão, o movimento congelaria em nada. “Nele existimos.” Esta é a reivindicação mais ampla de todas. A existência em si repousa em Deus. Identidade, lógica, permanência e a diferença entre algo e nada, tudo deriva dele. Sua mente sustenta as categorias que tornam a realidade inteligível.
Alguns filósofos pensavam que a razão em si poderia explicar a ordem do mundo. Eles identificavam Deus com a razão, ou com o universo como um todo, e concluíam que o mundo era um organismo vivo infundido com princípio racional. A Escritura também identifica Deus com a razão, pois ele é o Logos, aquele cuja sabedoria é o princípio racional de todas as coisas. Mas a Escritura nunca identifica Deus com o universo em si. Confundir Criador e criação é confundir aquilo que depende de algo mais com aquilo que não depende de nada. O mundo é feito de coisas mutáveis e finitas. Qualquer coisa que muda não explica sua própria existência, porque depende do que veio antes. Qualquer coisa que é finita não explica a si mesma, porque tem limites que não estabeleceu. Um todo composto de partes dependentes não pode explicar a si mesmo mais do que uma única parte dependente pode. Se Deus é o mundo, então ele não pode ser aquele que dá existência ao mundo. Algo não pode explicar a si mesmo apontando para si mesmo. Uma causa deve ser distinta de seu efeito, e uma explicação deve ser distinta daquilo que explica. Chamar o mundo de divino é negar essa distinção e dissolver o próprio conceito de divindade. Isso é incoerente. O verdadeiro Deus é tanto próximo quanto distinto. Ele sustenta todas as coisas sem ser idêntico a elas.
O panteísmo, antigo ou moderno, despoja a divindade de significado. Se tudo é chamado de Deus, então nada é Deus. Se todo o universo é tratado como divino, então “divino” torna-se um sinônimo de “tudo”, e a palavra perde o significado. Se Deus é absorvido pelo mundo, então o mundo fica sem explicação. Causa e efeito colapsam na mesma coisa, o que não é explicação alguma. Ao apagar a distinção entre Criador e criação, o panteísta apaga as próprias categorias do pensamento. A distinção é a base da razão. Se tudo é colapsado em um, não há mais identidade e relação, não há mais causa e efeito, não há mais verdade e falsidade. O panteísmo não expande o pensamento, mas o aniquila.
Paulo então se voltou para palavras que os atenienses teriam reconhecido de outro de seus poetas, dizendo: “‘Porque dele também somos geração’”. Isso não foi uma tentativa de encontrar um terreno comum. Foi um contragolpe. Paulo se apoderou de suas próprias palavras, despojou-as de significado pagão e as transformou em um testemunho contra sua idolatria. Pois, se os homens são geração de Deus, então dependem dele. Eles não existem por si mesmos. Não são autônomos. São seres derivados que carregam em todo pensamento e ação a marca de sua dependência.
Isso não foi uma concessão aos poetas. Foi a ruína deles. Eles haviam confessado algo que não podiam explicar. Se alegassem que todas as coisas vinham da natureza ou de um destino impessoal, sua admissão de uma paternidade divina os contradizia. Se alegassem que os homens podiam ascender pela sabedoria a um status divino, sua admissão de dependência tornava isso impossível. Suas palavras revelavam que mesmo no paganismo havia fragmentos de verdade suprimida. Esses fragmentos, quando examinados à luz da revelação, serviam não como aliados, mas como acusadores. Eles mostravam que o não cristão não pode escapar da consciência de Deus, mas que seus sistemas não podem sustentar nem mesmo as verdades que ele murmura.
Todos os incrédulos sabem que o Deus dos cristãos é real e verdadeiro, até mesmo o único Deus que criou todas as coisas, mas, porque são tolos e maus, eles reprimem esse conhecimento no fundo de suas mentes. Seus sentimentos e opiniões os traem, mostrando que Deus é sua suposição mais básica, mesmo enquanto o negam. Pensadores seculares falam de dignidade humana, como se o homem tivesse valor além do reino animal. Eles falam de direitos universais, como se a justiça tivesse uma posição absoluta. Eles falam de razão e ciência, como se a verdade fosse objetiva e vinculante. No entanto, nenhuma dessas alegações se encaixa em sua visão de mundo. Se o homem é um produto de uma evolução cega, então seu valor é arbitrário. Se a moralidade é o resultado da cultura ou do consenso, então os direitos se dissolvem quando o consenso muda. Se o pensamento é o produto de movimento químico, então a verdade não tem autoridade. Esses poetas modernos, como os antigos, revelam seu conhecimento reprimido de Deus, mesmo enquanto o negam. Suas próprias declarações testemunham contra eles, mostrando que dependem daquilo que se recusam a reconhecer.
Paulo prosseguiu enfatizando o ponto. “Portanto, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade possa ser parecida com uma imagem de ouro, prata ou pedra, lavrada pela arte e imaginação do homem.” Se os homens recebem a vida de Deus, então a natureza de Deus deve ser maior do que qualquer coisa que os homens possam criar. Uma imagem recebe sua forma, seus detalhes e até mesmo seu lugar das mãos de seu criador. Tratar tal objeto como uma semelhança do divino é inverter a ordem das coisas. Isso insulta o Criador ao compará-lo a um produto da criatura. Isso sugere que o que é sem vida poderia apontar para a fonte da vida, e que o que é dependente poderia representar aquele que não depende de nada. A contradição é clara, pois aquele que sustenta todas as coisas não pode ser representado por algo feito e colocado no lugar pelos homens.
Toda estátua, toda imagem, toda semelhança esculpida que as pessoas apresentam como divina revela a tolice de seu pensamento. Elas pegam pedra, esculpem-na com habilidade, cobrem-na com metal e então se curvam diante dela como se ela representasse o próprio fundamento de sua existência. O processo em si revela a mentira. O ídolo deve sua forma e seu lugar no templo àquele que o fez. Ele não pode se mover, não pode pensar, não pode agir. Tratá-lo como representando o divino esvazia o significado da palavra “Deus”. Se Deus é vida, um objeto morto não pode representar Deus. Se Deus é aquele que dá o ser, então matéria moldada não pode ser comparada ao divino. A idolatria é a tentativa de elevar a obra das mãos humanas no lugar daquele que fez as mãos humanas. É um absurdo.
Os atenienses eram renomados pela arte e pela arquitetura. Eles enchiam sua cidade com o que consideravam beleza. Mas Paulo desmontou sua pretensão. Ele mostrou que a beleza sem verdade é depravação, e a habilidade sem sentido é vaidade. Criar um ídolo exibe talento a serviço de uma mentira. O objeto pode deslumbrar os olhos, mas insulta a razão. O ser divino não é capturado em ouro ou prata. Deus é aquele em quem vivemos, nos movemos e existimos. Ele sustenta a arte, mas a arte não pode sustentá-lo. Ele concede a beleza, mas a beleza não o define.
Homens modernos repetem a mesma tolice de formas diferentes. Eles podem não esculpir estátuas para templos, mas moldam ideologias, sistemas e símbolos, e então os tratam como supremos. O dinheiro é elevado como um poder que sustenta a vida. A política é tratada como a fonte da ordem. A ciência é exaltada como a chave para a existência, substituindo Deus e a Razão, que é Cristo. Mas esses também são ídolos, coisas sem vida adornadas pela imaginação humana. O dinheiro é apenas papel ou entradas digitais. A política é apenas acordo humano. A ciência é apenas método humano, inferências a partir de suposições falsas e epistemologias. Quando os homens os tratam como divinos, são tão tolos quanto aqueles que se curvam diante de pedras. Aqueles que os exaltam caem na mesma contradição que marcou Atenas.
O raciocínio de Paulo forçou uma divisão nítida. Deus é a fonte do ser, aquele que sustenta todo pensamento e toda respiração. Ídolos são o oposto, produtos da imaginação e do artesanato, incapazes até mesmo de explicar sua própria presença. A questão não é apenas sobre adoração, mas sobre a razão em si. Deus torna o mundo inteligível, enquanto ídolos o dissolvem em contradição. Deus explica a vida, enquanto ídolos permanecem cegos, mudos e mortos. A adoração dirigida a ele repousa na verdade, enquanto a adoração dirigida a imagens não é nada mais do que homens honrando suas próprias invenções.
O panteísmo continua a borrar a distinção entre Criador e criação. A idolatria continua a forjar deuses de metal, pedra ou ideologia. Homens modernos que zombam de templos antigos ainda constroem seus próprios santuários em laboratórios e parlamentos, tratando a ciência ou a política como a fonte suprema. Mas eles permanecem presos à mesma irracionalidade. Se Deus for excluído, as categorias do pensamento e da vida se desintegram. Se a existência for atribuída à matéria cega, a própria noção de verdade se dissolve. Se a vida humana for atribuída a ídolos pagãos ou forças impessoais, então a razão e o conhecimento desaparecem, porque os ídolos dependem do homem e forças impessoais não podem produzir uma mente pensante.
Deus, como afirmado na visão de mundo cristã, é uma necessidade racional. Os homens vivem nele, e sem ele não podem viver. Eles se movem nele, e sem ele não podem se mover. Eles têm o seu ser nele, e sem ele não podem existir. Ao negá-lo, os homens abraçam tanto o pecado quanto a contradição. Os atenienses não podiam escapar disso. Seus templos erguiam-se como monumentos à sua tolice, mas seus próprios poetas traíam uma consciência da verdade. Sua arte ostentava sua habilidade, mas sua habilidade apenas magnificava sua irracionalidade quando pensavam que suas criações representavam o divino.
Visto que Deus está próximo, sustentando todas as coisas, e visto que os homens são sua descendência, então a ignorância é indesculpável. A idolatria é indefensável. O panteísmo é incoerente. A única resposta é o arrependimento, com uma conversão na natureza e disposição, e uma mudança total de cosmovisão. Paulo pressionaria esse ponto em breve, mas mesmo aqui a exigência está implícita. A proximidade de Deus não é um conforto a ser desfrutado por aqueles que vivem no erro. É uma convocação para reconhecer a dependência e adorar o Deus que dá vida e ser.
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