Arrependimento e Prestação de Contas

Paulo e os Filósofos

Arrependimento e Responsabilização

“No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam.” (Atos 17:30)

Atenas ouvia enquanto Paulo levava o argumento ao seu ponto decisivo. Ele havia descrito a cidade deles como escravizada por ídolos. Ele havia declarado que Deus é o Criador do céu e da terra, aquele que governa todas as nações, aquele que não pode ser confinado por templos nem sustentado por mãos humanas. Ele havia anunciado que todos os homens descendem de um só homem, e que Deus havia determinado os limites de sua existência. Cada uma dessas afirmações despojava os atenienses de sua superioridade imaginada e os deixava sem defesa. Agora Paulo passava da análise para o comando. Deus não estava mais deixando as nações na ignorância. Ele estava agora enviando a verdade pelo mundo, ordenando a todas as pessoas em todos os lugares que se arrependessem.

Isso sinalizou uma nova etapa na história. Paulo contrapôs duas eras uma à outra. Uma era o tempo em que Deus “ignorou” a ignorância das nações pagãs. A outra era o tempo em que Deus ordenou a todos os homens em todos os lugares que se arrependessem. A primeira significava silêncio e abandono. A segunda significava confronto e responsabilidade. A primeira permitia que as nações perecessem na idolatria sem advertência profética. A segunda as confrontava com o evangelho, deixando-as sem desculpa.

A chave para entender as palavras de Paulo está no significado de “ignorou”. No inglês comum, a palavra pode às vezes sugerir perdão, como quando alguém diz: “Eu vou ignorar o seu erro”. Mas o termo aqui não carrega tal sentido. A palavra grega usada por Paulo significa passar por cima, desconsiderar, deixar de lado. Ela aponta para negligência, não para aprovação. Deus não perdoou as nações em sua ignorância. Ele passou por elas em silêncio, deixando-as perecer.

Quando Paulo disse que Deus “deixou de lado” a ignorância das nações, ele não quis dizer que Deus as desculpou, perdoou ou as considerou inocentes. A palavra que ele usou se referia a passar por cima, desconsiderar, deixar algo de lado. Ela tinha o sentido de negligência, não de aprovação. Se confundirmos isso com perdão, contradizemos todo o testemunho das Escrituras, que insistem que não há perdão à parte de Cristo. O significado, então, é que Deus abandonou as nações pagãs ao seu caminho. Ele não lhes enviou profetas nem confrontou suas idolatrias de maneira sustentada. Ele permitiu que elas descessem à corrupção, e esse abandono em si era juízo, não misericórdia.

Romanos 1 confirma isso. Ele explica que, quando os homens rejeitaram a verdade de Deus na criação e se voltaram para ídolos, Deus “os entregou” à impureza e à futilidade de suas mentes. Isso não foi uma tolerância leniente. Foi uma sentença temível, porque, quando Deus entrega os homens aos seus pecados, ele retira o freio da verdade, e eles mergulham ainda mais na depravação. Paulo usou o mesmo raciocínio em Atenas. Quando Deus fechou os olhos para as nações, ele as deixou prosseguir sem confronto profético. Ele as entregou aos seus próprios caminhos, e o resultado foi idolatria, superstição e ruína moral. O significado não é que ele desculpou a ignorância delas, mas que a deixou em pé sem muita intervenção direta. Elas ainda eram consideradas pecadoras e condenadas ao inferno. Foi um adiamento na salvação, não no julgamento.

Deus criou Israel como a nação para receber sua lei e seus profetas. Ele se revelou a eles em aliança, templo e sacrifício. As outras nações foram deixadas na escuridão. Sua ignorância não era uma inconsciência inofensiva, mas uma condição sustentada pela supressão da verdade, como Paulo insiste em Romanos 1. Eles sabiam pela criação que Deus existe, que ele é poderoso e que eram responsáveis perante ele. No entanto, voltaram-se para ídolos. Eles eram culpados de negar o que sabiam em seus corações. A decisão de Deus de “ignorar” significava que ele não os confrontava através da voz de seus profetas. Ele permitiu que perecessem em sua cegueira.

Como diz o Salmo 147: “Ele revela a sua palavra a Jacó, os seus decretos e ordenanças a Israel. Não fez isso a nenhuma outra nação; elas não conhecem as suas ordenanças.” Quando Deus passou por alto as nações, Ele também reteve delas a palavra salvadora. Em geral, isso significou que gerações de gentios pereceram em sua ignorância, condenados por sua idolatria e pela lei escrita em seus corações. Quando Deus os passou por alto, eles foram abandonados sem esperança e morreram sem Cristo. Isso é o que Paulo quer dizer quando fala dos tempos passados de ignorância. Eles não foram perdoados. Eles foram condenados.?
Mesmo assim, houve exceções. A salvação sempre foi por meio de Jesus Cristo, seja pela promessa antes de sua vinda ou pelo cumprimento depois. Alguns gentios ouviram falar do Deus verdadeiro por meio do testemunho de Israel. Raabe, em Jericó, creu na palavra que ouviu sobre as obras do Senhor e foi salva. Rute, uma moabita, apegou-se a Israel e confessou o Deus de Abraão. Mais tarde, gentios tementes a Deus se uniram à sinagoga, ouviram as Escrituras e creram nas promessas. Esses indivíduos foram salvos pela fé no Cristo que havia de vir, assim como nós somos salvos pela fé no Cristo que veio. Mas esses casos foram o raro fruto da misericórdia de Deus irrompendo na escuridão. As nações como um todo permaneceram abandonadas. Deus as passou por alto, e elas pereceram.

Os atenienses e seus ancestrais nunca foram inocentes. Como a realidade e o poder de Deus são evidentes na criação e no coração, não há verdadeira ignorância de Deus, mas um conhecimento que foi suprimido na maldade. Todo homem sabe que há um Criador e Juiz. Todo homem sabe que sua vida é dependente e responsável. Suprimir esse conhecimento é pecado, e o pecado traz culpa. Romanos 1 declara que os gentios estavam “indesculpáveis”. Sua ignorância era deliberada e culpável. Eles escolheram seus ídolos e filosofias em vez da verdade. Quando Paulo disse que Deus “passou por cima” do passado, ele não quis dizer inocência. Ele quis dizer rebelião espiritual deixada sem contestação por palavra profética direta.

Paulo então marcou uma grande divisão na história. Ele disse: “mas agora” Deus ordena a todas as pessoas em todos os lugares que se arrependam. O longo período em que as nações foram deixadas a si mesmas havia terminado, e uma nova etapa havia começado. O passado foi um tempo em que a ignorância e a maldade se espalharam sem controle, quando os homens adoravam ídolos sem confrontos proféticos regulares, e quando Deus permitiu que eles afundassem ainda mais na escuridão e no inferno. Agora aquela era havia se encerrado. A voz de Deus estava ecoando pelo mundo através da pregação do evangelho. O que havia sido ignorado agora era exposto. O que havia sido deixado de lado agora era desafiado. Deus não estava mais passando por cima da idolatria deles, mas confrontando o mundo com a mensagem de Jesus Cristo.??O arrependimento é mais do que tristeza ou um momento de arrependimento. É uma ruptura decisiva com o pecado e uma reorientação em direção a Deus em Cristo. Um homem reconhece que sua vida foi construída sobre mentiras, admite que sua rebelião é contra o seu Criador e Juiz, e se afasta da idolatria para a verdade. O arrependimento não pode ser reduzido a sentimentos, cerimônias ou resoluções temporárias. É o abandono da falsidade e o abraço da palavra de Deus. Fé e arrependimento são inseparáveis, pois arrepender-se é afastar-se do pecado, e afastar-se do pecado é voltar-se para Cristo, confiando nele como Salvador e submetendo-se a ele como Senhor. O mandamento de se arrepender, portanto, não é um convite vago à espiritualidade, mas uma exigência de que ídolos e enganos sejam abandonados para se curvar perante o Filho de Deus que reina. Paulo convocou os atenienses exatamente para essa mudança.

Deus começou a anunciar seu domínio universal. Os atenienses foram convocados, embora se gabassem de sua sabedoria. Os bárbaros foram convocados, embora os gregos os desprezassem. Os romanos foram convocados, embora governassem o mundo. Os judeus foram convocados, embora tivessem a lei. Todo homem, em toda nação, em toda era, é ordenado a se arrepender. Nenhuma cultura, nenhuma filosofia, nenhuma religião oferece imunidade. Todos estão sob a mesma autoridade.

Atenas era famosa por seu pluralismo. Templos para incontáveis deuses enchiam a cidade. Filósofos debatiam uma multidão de ideias no mercado. Toda opinião parecia encontrar uma voz, toda divindade um santuário. Os atenienses se orgulhavam dessa aparência de abertura, considerando-a uma marca de cultura e sofisticação. Nesse mundo, Paulo declarou que um Deus governa tudo, e que um mandamento confronta todos. Não havia panteão de opções aceitáveis. Havia uma verdade, uma exigência, um Senhor. Atenas não podia mais se esconder atrás de seu pluralismo.

Toda reivindicação à verdade é exclusiva, mesmo quando finge ser tolerante. Dizer que muitos deuses existem exclui a reivindicação de que apenas um Deus existe. Dizer que todas as religiões levam ao mesmo fim exclui a reivindicação de que a salvação está em Cristo sozinho. O pluralismo não pode escapar de traçar linhas. Mesmo quando exige que todas as vozes sejam ouvidas, ele silencia a única voz que fala com autoridade divina. Atenas ilustra essa contradição. Seu povo acolhia debates intermináveis e entretinha inúmeras ideias, mas quando Paulo declarou que um Deus governa tudo e que todo homem deve se arrepender, a tolerância deles se esgotou. A suposta abertura de Atenas deu lugar ao ridículo e à resistência. Nossa própria era repete o mesmo erro. Os pluralistas se gabam de que nenhuma visão de mundo deve ser privilegiada, no entanto, eles colocam seu próprio dogma acima de todos os outros. Eles condenam os cristãos pela exclusividade, enquanto insistem que sua visão é a única posição aceitável. O pluralismo é autodestrutivo. Ele se destrói ao negar o que exige. Em contraste, a proclamação cristã é consistente. Um Deus criou tudo, governa tudo e comanda tudo. A exigência de arrependimento é exclusiva, mas também é racional, porque a verdade, por natureza, exclui a falsidade.

Nossa era celebra a tolerância em relação a toda religião, visão de mundo e estilo de vida. A única coisa condenada é a exclusividade. Qualquer um que afirme que um só Deus governa tudo é rotulado de arrogante, e qualquer um que proclame que somente Cristo salva é descartado como estreito de mente. No entanto, aqueles que denunciam a exclusividade não conseguem escapar de fazer julgamentos exclusivos próprios. Eles exigem que toda voz seja reconhecida enquanto silenciam a voz que fala com autoridade final. Seu padrão é inconsistente, e seu sistema é incoerente. O que eles chamam de tolerância é simplesmente outro dogma, um que não pode ser vivido com honestidade.

O mandamento de se arrepender é em si mesmo um ato da misericórdia soberana de Deus. Quando ele chama todas as pessoas em todos os lugares para se voltarem, ele afirma o seu direito como Criador e Juiz, mas também demonstra a sua vontade de salvar aqueles a quem ele escolheu. Em tempos passados, as nações foram deixadas em condenação, mas agora o mandamento se estende pelo mundo. Sua universalidade mostra tanto a seriedade do pecado quanto a grandeza do propósito de Deus. Todo homem, independentemente de sua posição ou condição, está sob essa convocação. O pobre e o rico, o iletrado e o filósofo, o escravo e o livre são igualmente ordenados a se arrepender. Ninguém pode se colocar acima da palavra de Deus, e ninguém é pequeno demais para ser por ela interpelado. O arrependimento é a exigência universal de Deus, que vai além de Israel e além de toda suposta elite espiritual. Isso não significa que todos obedecerão, mas revela a autoridade de Deus sobre todos. A palavra que ordena o arrependimento é a mesma palavra que condena a incredulidade e salva aqueles que creem em Cristo. Quando Paulo proclamou o arrependimento em Atenas, ele estava anunciando tanto a majestade da autoridade divina quanto a realidade da salvação no nome de Jesus.

Somente o cristianismo fornece uma fundação que a razão não pode rejeitar. Deus ordena a todas as pessoas em todos os lugares que se arrependam, e essa ordem flui de sua própria autoridade como Criador e Juiz. A exigência é universal, porque aquele que criou todos os homens tem o direito de governar todos os homens. A exigência não pode ser ignorada, porque toda pessoa prestará contas ao Deus que fala. Fora da visão de mundo cristã, não há verdade, nem razão, nem significado ou moralidade. Ao começar com a palavra de Deus e raciocinar a partir dessa fundação, chegamos à verdade, ao conhecimento e à moralidade que obriga toda consciência. O cristianismo se apresenta como o único quadro que fornece verdade sobre Deus, a realidade e o dever e destino humanos.

O dia do juízo está próximo. A gravidade não pode ser exagerada. Viver na ignorância e na maldade já trouxe condenação eterna, mas ouvir o evangelho de Jesus Cristo e recusá-lo leva a punições ainda maiores no inferno. Deus agora multiplica a responsabilidade ao emitir seu mandamento de forma universal. O homem que ouve falar de Jesus e o rejeita não é apenas culpado de idolatria e incredulidade, mas também culpado de desafiar o mandamento direto de Deus. Como diz a Bíblia, pois para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo. Para estes somos cheiro de morte para morte; para aqueles, aroma de vida para vida.

Os atenienses ouviram o chamado de Deus naquele dia, e o mundo continua a ouvi-lo agora. Deus outrora passou por alto as nações, deixando-as em sua ignorância, e elas pereceram sob a ira divina. Agora ele chama todas as pessoas em todos os lugares para se arrependerem. Sua palavra condena a incredulidade e salva os arrependidos. Ela não deixa nenhum homem com desculpa e livra aqueles que creem em Jesus Cristo. Os tempos de ignorância passaram. Deus penetra em toda nação por meio do evangelho.

📖 Artigo original:

Repentance and Accountability ↗