O Mundo Não Era Digno

A Verdadeira História de Sansão

Quando o nome de Sansão é mencionado, a memória da maioria das pessoas corre para uma única cena. Eles imaginam Sansão no colo de Dalila, desfeito pela luxúria, o nazireu reduzido ao ridículo. Sansão se torna o conto de advertência de força desperdiçada, o provérbio de carisma sem caráter. Professores repetem esta versão de sua história como se a lição fosse óbvia: o poder pode ser grande, mas a fraqueza do apetite anula tudo. Sua vida é contada como se tivesse sido escrita principalmente para advertir, não para honrar.

Essa distorção é tão comum que muitas pessoas mal percebem que se trata de uma distorção. Elas assumem que estão lendo a história bíblica, mas o que realmente absorveram é o eco cultural. Sansão é lembrado em miniatura, desmoronado no colo de Dalila, sua grandeza escondida atrás da sombra do fracasso. Mesmo aqueles que desejam ser caridosos frequentemente o mencionam apenas para alertar sobre os perigos do compromisso ou da paixão.

Vale a pena notar como essa redução é aplicada de forma desigual. Davi pecou com Bate-Seba e arranjou a morte do marido dela, no entanto, sua memória não foi reduzida apenas a isso. Ele ainda é honrado como o rei segundo o coração de Deus, o pastor que cantou os salmos, o homem da aliança e do reinado. Seu pecado é lembrado, mas não é permitido que defina toda a sua vida. Com Sansão, porém, o oposto ocorre. Sua fé, seu chamado, suas vitórias, sua morte em triunfo, tudo isso é eclipsado por Dalila na narrativa comum.

Por que Sansão é tratado com mais severidade? Parte da razão é que muitos leitores preferem ampliar o que confirma seu próprio cinismo. Eles se fixam nas falhas dos outros, especialmente quando essas falhas parecem zombar dos próprios dons que Deus concedeu. Em Sansão, eles veem força desperdiçada, e isso justifica seu instinto de zombar. Mas seu julgamento diz mais sobre eles do que sobre ele. Eles revelam o fato de que não entendem os caminhos de Deus, que chama homens falhos, concede-lhes fé e opera por meio deles para cumprir seu propósito. As mesmas pessoas que facilmente se desculpam por fraqueza são impiedosas em relação a Sansão. Elas proferem uma sentença que o próprio Deus revogou.

A própria Palavra de Deus nos diz o contrário. Em Hebreus 11, Sansão é mencionado na mesma frase com Gideão, Baraque, Davi, Samuel e os profetas. O capítulo os descreve como aqueles que pela fé conquistaram reinos, obtiveram o cumprimento de promessas, fecharam a boca de leões, escaparam ao fio da espada e puseram em fuga exércitos estrangeiros. Em seguida, conclui com palavras que derrubam os veredictos humanos: eles eram aqueles “(o mundo não era digno deles)”. Sansão não é lembrado no céu como o mundo o lembra na terra. O mundo o despreza, mas Deus o honra. O mundo o descarta como fraco, mas Deus o coloca entre os fiéis.

Devemos prestar atenção a esta frase, pois ela não é um idioma ou um floreio. No grego original, ela é clara e enfática: o mundo não era digno deles. O sentido é inconfundível. O mundo os julgou como sem valor, tratou-os como um incômodo, expulsou-os para desertos, cavernas e buracos na terra. O mundo os desprezou, acorrentou-os, zombou deles e os matou. Mas, no julgamento de Deus, a balança foi invertida. Não eram eles que estavam abaixo do mundo, mas o mundo que estava abaixo deles. O mundo era inadequado até mesmo para recebê-los, indigno de andar em sua companhia, indigno de respirar o mesmo ar.

A significância disso pode ser vista ao traçar a linha de homens e mulheres fiéis ao longo da história. Noé foi ridicularizado enquanto construía a arca, mas por meio dele o mundo foi julgado e a nova criação começou. José foi lançado em uma cova e vendido como escravo, mas Deus o exaltou para governar o Egito e preservar a vida. Elias foi chamado de perturbador de Israel, Jeremias foi aprisionado como traidor, Daniel foi lançado aos leões, e os profetas foram mortos. Cada um deles foi tratado como lixo pelo mundo. No entanto, cada um se elevou acima do mundo que os desprezava. O veredicto de Deus foi fixado: o mundo não era digno deles.

Aplique isso a Sansão. Ele foi traído por sua esposa, rejeitado por seu povo, zombado por seus inimigos e ainda é menosprezado por muitos que afirmam honrar as Escrituras. Mas Deus o colocou ao lado de Abraão, Moisés e Davi, e declarou que o mundo não era digno dele. Essa é a medida de seu valor. Não é o escárnio dos filisteus ou a zombaria de pregadores modernos que o define. É a aprovação de Deus. E essa aprovação não é casual. Não é Deus dizendo que Sansão, apesar de suas falhas, ainda merece um pouco de reconhecimento. É Deus dizendo que Sansão, por causa de sua fé, supera de tal modo o mundo que o mundo não merecia tê-lo de forma alguma.

Esta não é a primeira vez que Deus reverteu a opinião humana. Noé foi ridicularizado enquanto construía a arca, mas aos olhos de Deus ele condenou o mundo e tornou-se herdeiro da justiça. José foi traído e vendido, mas Deus o exaltou para governar e salvar vidas. Os profetas foram espancados, aprisionados e serrados ao meio, mas o mundo não era digno deles. A mesma reversão define Sansão. O mundo olhou para ele e viu um tolo. Deus olhou para ele e viu um homem de fé.

O capítulo em Hebreus apresenta outro ponto que não podemos deixar de notar. Aqueles a quem Deus elogia não são impecáveis. Moisés desobedeceu ao mandamento de Deus no deserto e foi impedido de entrar na terra prometida. Davi cometeu adultério e assassinato, e foi repreendido pelo profeta. Seus pecados foram reais, e suas consequências graves, mas Deus ainda os contou entre os fiéis. Eles não agradaram a Deus pela perfeição das obras, mas pela fé. A fé foi a marca decisiva.

Sansão pertence a essa mesma companhia. Seus pecados são evidentes, mas sua fé era genuína. O Espírito de Deus moveu-se sobre ele, capacitou-o e respondeu-lhe em sua oração final. O registro não nos convida a fingir que ele era sem falhas, mas também não nos permite defini-lo por suas falhas. Ele era um homem de fé, e por essa razão obteve aprovação de Deus.

A fé, então, é a questão decisiva. As Escrituras dizem que sem fé é impossível agradar a Deus. Não é meramente difícil ou improvável, mas impossível. Aqueles que se aproximam de Deus devem crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam. A fé é a certeza da realidade de Deus e da verdade de sua palavra. Não é uma decisão humana ou um salto de otimismo, mas um dom da graça soberana de Deus. Pela fé, os homens suportam zombarias, enfrentam o fogo e conquistam exércitos. Pela fé, Sansão despedaçou leões, derrubou milhares e, na morte, derrubou o templo de seus inimigos. Sua força não era meramente física. Era a força da fé expressando-se em ação.

É por isso que devemos começar com a pressuposição correta. Se nos aproximarmos da história de Sansão assumindo que ela trata principalmente de luxúria e queda, então interpretaremos mal cada linha. Procuraremos a sombra de Dalila em cada cena. Explicaremos suas façanhas como acidentes de poder em vez de atos de fé. Terminaremos pensando que Deus o incluiu em Hebreus 11 por pena. Mas se nos aproximarmos com a pressuposição que o próprio Deus nos dá, de que Sansão era um homem de fé, então a história se desenrola com coerência e significado. Sua fraqueza era real, mas era fraqueza no meio da fé. Suas vitórias eram reais, mas eram vitórias da fé por meio do Espírito de Deus. Até mesmo sua morte se torna inteligível: não derrota, mas triunfo por meio da fé.

Não é difícil ver como pressuposições distorcem a história. Quando Sansão desejou uma esposa filisteia, alguns imediatamente assumem que a luxúria era seu único motivo. A própria Escritura diz que o assunto era do Senhor, que estava buscando uma ocasião contra os filisteus. Lida de forma errada, a história é sobre desejo proibido. Lida corretamente, é sobre o decreto de Deus operando através da vida de Sansão pela fé. Quando Sansão derrubou mil homens com uma queixada, alguns assumem que é um conto de força bruta. Lida corretamente, é o Espírito de Deus movendo-se através da fé de seu servo. Quando Sansão orou no final de sua vida, alguns ouvem apenas o clamor de vingança. Lida corretamente, é a oração da fé, respondida por Deus, que cumpriu seu chamado em um ato final.

A diferença entre essas leituras não é pequena. Uma versão diminui Sansão a um tolo. A outra o honra como um homem de fé. Uma ecoa o veredicto do mundo. A outra se submete ao de Deus. Não há terreno neutro aqui. Concordar com a caricatura do mundo é discordar de Deus. Ficar ao lado de Sansão como um homem de fé é ficar ao lado de Deus contra o mundo.

Devemos também ver como essa perspectiva define o tom para toda a narrativa. A história de Sansão não é uma sequência aleatória de proezas e falhas. É a vida de um homem chamado e capacitado por Deus, tropeçando mas crendo, julgado pelos homens mas elogiado por Deus. Suas vitórias, sua fraqueza, sua queda e seu triunfo final devem todos ser lidos como partes dessa verdade maior. O fio condutor não é o apetite ou a tragédia. O fio condutor é a fé.

E essa perspectiva não é apenas sobre Sansão. Ela também fala conosco. A mesma palavra que declarou o mundo indigno de Sansão declara o mundo indigno de todo crente. Os cristãos são frequentemente desprezados, caricaturados ou descartados. O mundo os julga como irrelevantes, como obstáculos ao progresso, como pessoas dignas de serem zombadas. Mas, no julgamento de Deus, o mundo é indigno deles. A mesma inversão se aplica. Aqueles que creem em Cristo podem ser tratados como lixo, mas o céu os considera como tesouro. Eles podem ser caluniados como tolos, mas Deus os chama de sábios. Eles podem ser reduzidos a fracassos pela memória do mundo, mas Deus os lembra como vencedores pela fé.

Isso traz uma aplicação profunda. Muitos que se dizem cristãos ainda repetem a caricatura do mundo sobre Sansão. Eles falam dele como se sua vida fosse principalmente sobre luxúria, como se Dalila o definisse, como se sua morte fosse apenas uma ruína de advertência. Eles revelam por isso que seus instintos não são moldados pela palavra de Deus, mas pela opinião do mundo. Desprezar Sansão é ficar do lado dos filisteus contra Deus. Honrar Sansão é ficar do lado de Deus contra o mundo. Não há meio-termo. O veredicto de Deus é claro: Sansão foi um homem de fé, e o mundo não era digno dele.

Isso também é uma palavra de encorajamento. Talvez você tenha sido caluniado, mal interpretado ou reduzido a uma caricatura. Talvez você seja tratado como se sua vida de fé fosse uma tolice. Você pode até ser lembrado principalmente por uma fraqueza, como se sua história pudesse ser resumida a um único fracasso. Mas se você crê em Deus, então o mundo não é digno de você. Você é medido não pela memória humana, mas pelo julgamento divino. O próprio Deus declarou que a fé obtém a sua aprovação, e pela fé você se eleva acima do mundo.

Portanto, devemos aprender a pensar em Sansão corretamente. Ele não é o tolo trágico da imaginação popular. Ele não é mero aviso sobre apetite e luxúria. Ele é um dos fiéis, um homem aprovado por Deus, um homem de quem o mundo não era digno. Essa é a lente através da qual devemos ler sua vida, e é a lente através da qual devemos entender a nossa própria. O mundo despreza a fé, mas Deus a honra. O mundo zomba dos fiéis, mas Deus diz que o mundo está abaixo deles. A vida de Sansão nos ensina a confiar nesse veredicto.

📖 Artigo original:

The World Was Not Worthy ↗