Acaso e Necessidade

Paulo e os Filósofos

Acaso e Necessidade

Um grupo de filósofos epicureus e estóicos começaram a discutir com ele. Alguns perguntavam: “O que esse tagarela quer dizer?” Outros comentavam: “Parece que está anunciando deuses estrangeiros”, pois Paulo estava pregando as boas novas a respeito de Jesus e da ressurreição... Todos os atenienses e estrangeiros que ali viviam não cuidavam em outra coisa senão falar ou ouvir as últimas novidades. (Atos 17:18, 21)

Atenas há muito se autodenominava o lar da sabedoria. Era a cidade de Sócrates e Platão, de Aristóteles e Zenão. Sua reputação se espalhara pelo mundo, e os visitantes frequentemente sentiam que estavam entrando no centro mesmo do pensamento e da cultura. Os atenienses haviam construído templos e estátuas para honrar seus deuses, mas também construíram escolas e fóruns para honrar suas próprias mentes. Orgulhavam-se de serem abertos a toda ideia, ansiosos para discutir qualquer doutrina e rápidos em ouvir o que os viajantes traziam do exterior. Para o observador externo, Atenas era o auge da filosofia, a coroa da investigação racional.

Paulo entrou nesta cidade com o evangelho de Jesus e a ressurreição. Ele não pisou no mercado para admirar o aprendizado dos atenienses. Ele veio como um arauto da revelação divina. Suas palavras logo chegaram aos ouvidos de duas escolas que alegavam estar no auge da filosofia: os epicureus e os estoicos. Cada uma tinha uma longa tradição, e cada uma havia atraído seguidores por séculos. Em Atenas, suas ideias exerciam influência, e eram vistas como caminhos rivais para a sabedoria. Quando Paulo começou a falar de Cristo, eles se reuniram ao seu redor, alguns zombando, alguns curiosos, todos julgando suas palavras através de seus próprios sistemas de pensamento.

Os epicureus acreditavam que a realidade era composta de átomos se movendo pelo vazio. Para eles, o mundo não foi criado por uma mente divina nem sustentado pela providência. Ele era o resultado de colisões aleatórias e movimentos cegos. Eles negavam o julgamento após a morte, ensinando que a alma se dissolvia com o corpo. Seus deuses, se existissem de fato, eram distantes e desinteressados. A vida humana não tinha direção além deste mundo, e o homem sábio deveria buscar o prazer, definido como a ausência de dor e medo. Seu objetivo era viver tranquilamente, evitar perturbações e escapar do temor da ira divina ou do castigo eterno.

À primeira vista, tal filosofia parece oferecer consolo. Ela diz às pessoas para não se preocuparem com o julgamento e para não temerem a vida após a morte. Ela promete paz ao negar a responsabilidade. Mas o sistema desmorona sob suas próprias alegações. Se todas as coisas vêm de átomos aleatórios colidindo no vazio, então a razão em si é um acidente. O pensamento é reduzido a matéria em movimento. Nesse caso, ninguém tem base para dizer que sua filosofia é verdadeira. Seu raciocínio não seria nada mais do que átomos se movendo em seus crânios, sem mais significado do que poeira rodopiando no vento. Ao negar a providência, os epicuristas negaram a própria estrutura que tornava o raciocínio possível. Eles eram como homens que serram o galho no qual estão sentados, apenas para cair com seu próprio argumento.

Sua negação da vida após a morte também acarretava ruína moral. Se a alma se dissolve, então a justiça é silenciada. Tiranos que matam e roubam escapariam com seus crimes se conseguissem evitar a punição nesta vida. Os fracos sofreriam sem esperança, e os poderosos reinariam sem temor. Um mundo sem julgamento é um mundo sem justiça. O sonho epicurista de paz vem ao preço do significado e da moralidade. Seu conforto repousa na decepção, sua liberdade na cegueira.

Os estoicos representavam um contraste marcante. Eles rejeitavam a ideia de acaso cego e, em vez disso, ensinavam que o universo era governado por uma ordem divina. Tudo, diziam eles, era regido pela razão, que identificavam com a sua ideia de Deus ou da própria natureza. O mundo era um organismo vivo infundido com um princípio racional, e todo evento ocorria pelo destino. Para os estoicos, o destino não significava sorte ou acaso. Significava inevitabilidade, uma cadeia inquebrantável de causas que fixava todo evento e todo pensamento. Nada poderia acontecer de outra forma. Os seres humanos eram centelhas dessa razão universal. Viver bem significava alinhar a vida com o fluxo da necessidade, aceitando tanto a alegria quanto o sofrimento com uma resignação calma. Seu ideal era a virtude, uma vida livre das paixões que perturbam a alma.

Comparado ao hedonismo epicurista, o estoicismo parece nobre. Ele apela para a força, a resistência e a disciplina. Mas ele se dissolve sob exame. Ao identificar o mundo com Deus, os estoicos apagaram a distinção entre Criador e criação. Eles alegavam construir sobre a razão, mas ao equipará-la à necessidade impessoal, destruíram sua própria natureza. Se todo pensamento é predeterminado dessa maneira, não há distinção entre verdade e erro. Um silogismo sólido e uma ilusão seriam igualmente predestinados, de modo que a razão perde o poder de julgar qualquer um deles. Embora aleguem honrar a razão, os estoicos a esvaziaram de significado.

Essa falha se estendeu à sua filosofia moral. Ao tornar todas as coisas o desdobramento de uma necessidade impessoal, eles despojaram as ações humanas de significado moral. A postura calma do sábio não é mais racional do que a crueldade do tirano, pois ambos são produzidos pelo mesmo destino. O que eles chamavam de virtude era apenas submissão ao que quer que a necessidade impusesse. Sua suposta sabedoria não conseguia distinguir entre o bem e o mal, pois ambos estavam presos na mesma cadeia de causalidade. O mal em si tornava-se necessário e, portanto, divino, tão santo quanto a bondade ou a justiça. Com o julgamento apagado, a virtude tornava-se uma máscara que cobria a resignação.

O sábio estoico que se gaba de virtude não é mais responsável em seu sistema do que uma pedra rolando colina abaixo. Sua compostura foi determinada pela mesma necessidade que impulsionou a mão do assassino. Ao apagar o Criador, eles apagaram o julgamento, e ao fazer isso apagaram o homem. O que restou foi apenas resignação perante um processo impessoal. Eles pensavam que eram fortes, mas eram fracos. Chamavam seu modo de vida de virtude, mas era apenas um fingimento. Sem o Deus vivo, seu pensamento tornou-se sem sentido e seu contentamento não era nada além de desespero.

Epicuristas e estoicos se opunham uns aos outros, mas quando Paulo pregou Jesus e a ressurreição, eles se uniram contra ele. As filosofias deles colidiam em todos os detalhes, mas eles estavam unidos em suprimir a verdade de Deus. Essa é a natureza das visões de mundo e religiões não cristãs. Sistemas concorrentes podem lutar uns contra os outros, mas eventualmente se unem contra a revelação cristã. Suas contradições não impedem sua aliança contra Cristo. Para os epicuristas, Paulo soava como um tolo falando de intervenção divina e vida após a morte. Para os estoicos, Paulo soava como um estrangeiro introduzindo deuses estranhos. Juntos, eles o dispensaram como um tagarela, um catador de sementes que havia reunido fragmentos de pensamento sem compreensão.

Eles se sentaram na cidade que alegava definir a sabedoria, mas zombaram da voz da revelação divina. Eles se consideravam mestres do debate, mas reduziram o evangelho a mitos estrangeiros. Quando Paulo falou sobre ressurreição, eles nem mesmo entenderam a palavra. Eles a confundiram com outra divindade, deixando de ver que ele estava falando de um evento histórico que despedaçou suas categorias. Essa cegueira era de fato devida à falta de inteligência, e era combinada com um ato de supressão pecaminosa, a recusa em reconhecer o Deus que eles sabiam ser verdadeiro em seus corações.

Lucas adiciona uma nota sobre a própria Atenas. Ele diz que todos os atenienses e os estrangeiros que viviam lá passavam o tempo fazendo nada além de falar sobre e ouvir as ideias mais recentes. Atenas amava a novidade. Seu povo ansiava pela próxima doutrina, o próximo mestre, a próxima teoria. Eles enchiam seus dias com discussões, mas suas conversas não produziam certeza alguma. Eles perseguiam a sabedoria, mas nunca atingiam a verdade. Eles admiravam sua abertura, mas sua abertura os deixava vazios.

Essa é a marca da filosofia sem revelação. Ela se move de ideia em ideia, mas nunca encontra descanso. Ela faz perguntas, mas nunca recebe respostas. Ela se torna uma máquina de movimento perpétuo, girando infinitamente sem destino. O mercado de Atenas, com seu falatório e debate, é espelhado hoje em universidades, plataformas de mídia e fóruns online. As pessoas falam, especulam e discutem sobre o significado da vida, sobre moralidade, sobre política, sobre o futuro, sobre a natureza do universo. Ideias surgem e caem, mas apenas a palavra de Deus oferece verdade.

Paulo não se juntou a Atenas na especulação. Ele veio com proclamação. Ele falou de Jesus e da ressurreição. Isso não era outra teoria para adicionar à pilha. Era revelação, fixa e final. Declarava que Deus havia entrado na história, que Cristo havia morrido pelos pecados e que ele havia ressuscitado dos mortos. Isso não era mera ideia, mas um fato que demandava reconhecimento. Contra séculos de especulação, Paulo entregou certeza. Contra debates intermináveis, ele trouxe verdade e realidade.

Epicureus modernos ainda pregam o acaso como realidade última. Eles falam na linguagem da ciência, alegando que o universo começou em uma explosão cega e que a vida surgiu por mutação aleatória. Eles afirmam que, quando a morte chega, a consciência se dissolve. Eles alegam que isso é fato, mas é especulação sem argumento ou evidência. Ao tornarem o acaso último, eles contornam a própria razão, deixando o conhecimento impossível. Com a razão desaparecida, o significado e a moralidade também são destruídos.

Os estoicos modernos ainda adoram a ordem racional sem o Criador. Eles falam de lei natural, do universo, de se alinhar com o que é. Eles negam o Deus vivo, mas louvam uma razão impessoal. Ao fazer isso, eles despojam a razão de sua fundação, pois, à parte de Deus, sua suposta ordem é apenas uma projeção do pensamento humano sobre o vazio. É uma lógica com axiomas falsos, inevitavelmente levando ao absurdo. Uma vez que seu pensamento se torna arbitrário, suas alegações sobre moralidade e todas as outras coisas também se tornam arbitrárias, ignorantes e sem sentido.

A cultura da novidade também persistiu. As pessoas perseguem tendências, teorias e movimentos. Elas enchem suas mentes com as vozes mais recentes, os livros mais recentes, as manchetes mais recentes. O padrão de Atenas se repete em nossa própria era, apenas mais alto e mais rápido. A humanidade ainda corre em círculos de especulação, ainda suprime a verdade, ainda zomba da revelação.

Contra isso, o evangelho de Jesus Cristo ainda se mantém como a única palavra de verdade e certeza. Ele nos diz que o universo não é o produto do acaso, e que não é um organismo racional impessoal. Ele nos diz que o mundo foi criado por Deus, que a história é governada pela sua providência, e que o julgamento aguarda todo homem. Ele nos diz que Cristo ressuscitou, quebrando o poder da morte, e que o perdão é dado em seu nome.

Aqui reside a verdadeira antítese. A filosofia sem Deus dissolve-se em contradição, quer se curve ao acaso ou à necessidade. O epicurista destrói a razão ao reduzi-la ao acidente. O estoico destrói a razão ao absorvê-la no destino. Ambos abandonam a racionalidade ao rejeitar o Criador. Seus sistemas são inimigos da razão, mesmo enquanto alegam defendê-la. A cosmovisão cristã, por outro lado, fornece a única base para a razão. Ela fornece as categorias que tornam a interpretação possível. Ela estabelece certeza onde a filosofia oferece apenas confusão.

O encontro preparou o terreno para o discurso de Paulo no Areópago. Ele logo declararia que Deus é Criador e Juiz, que todos os homens devem se arrepender, e que Cristo foi ressuscitado dos mortos. Mas mesmo antes desse discurso, o confronto já era claro. O evangelho não entrou no mercado como mais uma ideia. Ele chegou como a palavra de Deus, confrontando os falsos sistemas dos homens e declarando o juízo de Deus.

Atenas estava cheia de ídolos, tanto em seus templos quanto em suas filosofias. Os epicureus adoravam o acaso, os estoicos adoravam a ordem, e o povo adorava a novidade. Paulo veio para derrubar esses ídolos com a revelação de Deus. Suas palavras ainda ecoam em nosso próprio mundo, onde os mesmos ídolos permanecem. A escolha se apresenta diante de nós como se apresentou diante deles. Podemos nos apegar ao acaso aleatório ou à necessidade mecanicista, destruindo assim a racionalidade. Ou podemos crer na revelação de Deus em Cristo, que é ele mesmo a Razão, e que assegura a vida por meio da ressurreição.

📖 Artigo original:

Chance and Necessity ↗